segunda-feira, 2 de setembro de 2013

MIGUEL ORCI, UM BOTONISTA DA REGRA GAÚCHA.


Advogado há 41 anos, com uma bela residência na área central de Canoas, onde há uma sala de jogos e nela uma mesa para a prática do futebol de botões. Pai de um tri-campeão gaúcho, Miguel Eduardo e amigo especial de Lenine Macedo de Souza participou de inúmeros campeonatos na regra Gaúcha, sempre defendendo o seu Bangu.
Esse amigo nasceu em 20 de janeiro de 1939, na cidade fronteiriça Uruguaiana. Lá viveu até ser aprovado em primeiro lugar no concurso no Banco do Estado do Rio Grande do Sul. Veio para Porto Alegre menino ainda, para trabalhar e estudar. Sina de um vencedor, pois conseguiu vencer em todas as suas batalhas.
Em sua cidade havia dois quartéis. Tentou ser militar, mas foi barrado em virtude de uma hérnia que o impedia de montar. Então, depois de assistir a um júri, onde um advogado realizou uma brilhante defesa do réu, surgiu seu desejo de se tornar um deles.
Estudou com esforço e tenacidade e conseguiu o seu ambicionado diploma. Entrou para a política e se tornou defensor dos pobres e desamparados. Com uma lucidez maravilhosa, consegue escrever seu nome na história de Canoas, apesar de ter se retirado da vida política em 1992, continua sendo reconhecido até os dias atuais, mesmo sem se lembrar de quem o cumprimenta, sente a gratidão das pessoas que ajudou em outros tempos. Semeou em terra fértil e está colhendo diuturnamente seus frutos.
Clássico da Regra Gaúcha: Bangú X Botafogo
Com seu filho, que encaminhou ao futebol de mesa, trava duelos em sua sala de jogos. Faz parte dos Lobos de Torres e estará presente na Sociedade Amigos de Torres no dia 28 de setembro para mais uma reunião anual daqueles apaixonados botonistas. Espera conseguir mais uma taça para a sua imensa galeria.
Campeão Eduardo e Miguel Orci
A pergunta que deve estar martelando a cabeça de vocês é: como eu o conheci? Através do amigo comum Enio Seibert soube de sua obra poética e escrevi a ele, pois haviam me confidenciado que ele era natural de Uruguaiana. Eu morei um ano naquela cidade e tenho recordações maravilhosas de lá. Isso foi em 30 de setembro de 2011.
E ele respondeu que tínhamos coisas em comum, como o pó na sola dos sapatos da Uruguaiana da década de cinquenta. A imponência da Ponte Internacional, ligando o Brasil à Argentina e o campo dos Eucaliptos, do seu Ferro Carril. Suas camisas em listras brancas e vermelha fez com que ele projetasse seu amor pelo Bangu do Rio de Janeiro. Já naquela época, ele e o Eduardo possuíam 112 taças, troféus, diplomas, cartões de prata, láureas, medalhas gravadas em bronze, prata e metal. O pessoal do futebol de mesa o conhece pelo nome Sr. Bangu.
Mas, além do futebol de mesa, advocacia, dedica-se à poesia. É o poeta dos botões e tem me presenteado com obras maravilhosas, as quais estão guardadas em uma pasta especial no meu computador. A última que recebi e que me deixou emocionado, tem o título “As amizades sadias são eternas”, usando o meu nome e realizando um acróstico que vou mostrar a todos que acompanham esse espaço ocupado por mim no Blog da AFM Caxias do Sul:

Mas, o meu amigo Miguel é apaixonado por Camboriú e resolveu homenageá-la criando um time de futebol de mesa denominado CAMBORIU PRAIA CLUBE FUTEBOL DE MESA, cujo emblema é publicado nessa coluna.

Eu já tive a alegria de recebê-lo em minha casa, quando nos conhecemos pessoalmente. Infelizmente, estava com problemas em seu ouvido devido à despressurizarão do avião que o trouxe até o aeroporto de Navegantes. Mesmo assim ficamos conversando por um longo tempo, quando pudemos aquilatar o amor ao futebol de mesa.
Agora, Miguel Orci vai voltar a Camboriú e dessa vez vamos poder degustar o camarão no palito, bebericar um chope geladinho e jogar conversa fora, olhando as ondas do mar baterem nas areias de nosso linda praia. Daqui ele vai direto até Torres, onde, como um dos fundadores dos Lobos de Torres estará disputando mais um tradicional Torneio na Regra Gaúcha.
Confraria dos Lobos
Desejamos sorte a esse amigo querido e que o troféu mais valioso vá morar em sua sala de jogos, na bela Canoas, terra que o adotou e que ele ama de paixão.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

UMA TAÇA QUE VIROU CAMPEONATO BRASILEIRO

Após a realização do segundo Campeonato Brasileiro na cidade de Recife (Pernambuco), em agosto de 1971, a afluência de botonistas ao terceiro campeonato ficou bastante reduzida. As despesas em deslocamentos eram imensas. Naquele tempo, as passagens aéreas eram quase proibitivas para a grande maioria dos botonistas. Além delas, havia também despesas de hospedagem, alimentação e outros gastos que seriam efetuados no tempo em que estivessem fora de casa.
Na tentativa de resolver parte disso tudo, a Liga Caxiense de Futebol de Mesa, encarregada de organizar e promover o terceiro encontro botonístico brasileiro resolveu optar por um campeonato diferenciado. Chamou de Taça Brasil e, com isso, evitou o campeonato por equipes, fazendo com que somente fosse realizado o individual. Seriam apenas dois botonistas de cada Estado. Aproveitando para promover a Regra Brasileira no Rio Grande do Sul, convidando uma dupla de cada cidade que sabíamos praticar a nossa Regra. Mesmo assim, as defecções foram grandes. Estiveram presentes: Bahia, Sergipe, Alagoas, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Santa Catarina e várias duplas do Rio Grande do Sul.

A Liga Caxiense contou com a colaboração valiosa do Conselho Municipal de Desportos que, na figura de seu presidente Mário de Sá Mourão não mediu esforços no sentido de realizar uma competição que ficasse marcada na memória de todos os que a ela comparecessem. O Conselho Municipal patrocinou todos os troféus, hospedagem e alimentação, além de ônibus para os deslocamentos dos participantes. Além disso, monitoraram os órgãos de imprensa, ofertando material para a divulgação, que teve o seu início em 15 de abril no Jornal “O Pioneiro” e sequência em 13 de maio no “Correio Riograndense”, 15 de julho também no “Correio Riograndense” e 29 de julho com o encerramento e a divulgação dos números finais da competição no Jornal “O Pioneiro”.


Outro trabalho realizado foi a divulgação através de fotografias e jornais para todas as Associações que estariam participando, tendo inclusive um jornal de Belo Horizonte estampado a fotografia oficial da Competição em sua página de esportes, convocando os botonistas locais para participarem do evento. Até um festival do Chope, promovido pela Associação Caxias de Futebol, antecessora da S. E. R. Caxias do Sul serviu para promover a festa que iríamos realizar. No desenho da ilustração aparecem, no canto esquerdo, as caricaturas do Marcos Barbosa e minha, ostentando um cartaz que estampava estar chegando a Copa do Brasil de Futebol de Mesa.

Além dessas providências, realizamos por convocação um jantar com a imprensa esportiva de Caxias do Sul, nas dependências da AABB, onde foi explicada a razão da realização do campeonato brasileiro que promoveria a cidade em todo o país. Muitos jornalistas e até o Vice-prefeito aproveitaram para bater uma bolinha, relembrando os tempos em que praticavam o futebol de mesa com botões. O Vice Prefeito Mansueto de Castro Serafini Filho era meu ferrenho adversário quando iniciei a minha vida botonística. Morávamos perto e jogamos muitas vezes. Com isso, diariamente as Rádios locais davam notícias sobre o andamento das inscrições, anunciando as adesões e fazendo reportagens com os participantes que chegavam à cidade. Os sergipanos foram os primeiros a chegar e foram entrevistados, reclamando do frio que o mês de julho, na serra gaúcha, martirizava aqueles que vinham da linha do Equador.
O Rio Grande do Sul e Santa Catarina pagaram o preço muito alto por estarem afastados dos centros em que a Regra Brasileira era praticada com mais assiduidade. As partidas finais reuniram os representantes cariocas e baianos que ficaram com as quatro maiores premiações. Antonio Carlos Martins, do Rio de Janeiro, carregou o Troféu Victório Três, como campeão. Orlando Nunes, da Bahia, foi premiado com o Troféu Câmara de Vereadores de Caxias do Sul, ficando com o vice-campeonato. Fernando, do Rio de Janeiro abiscoitou o Troféu Mansueto de Castro Serafini Filho e, à Jomar Moura, coube o Troféu Liga Caxiense de Futebol de Mesa. Mas, a surpresa maior estaria reservada ao final, pois todos os participantes receberam um troféu denominado Conselho Municipal de Desportos de Caxias do Sul. Aos árbitros e representantes da imprensa foi ofertada uma medalha comemorativa ao evento.
O sucesso foi imenso e recebemos visitas de interessados de diversos locais do Rio Grande do Sul. Pessoas de Uruguaiana, Veranópolis, Bento Gonçalves, Flores da Cunha, Santa Maria e Lajeado visitaram o Ginásio da AABB para assistir aos emocionantes jogos realizados.
À noite, após o encerramento do Campeonato Brasileiro, apelidado de Copa do Brasil, todos estiveram reunidos no salão de festas da AABB, onde compareceram o Senhor Prefeito Municipal Victório Trez, o Vice Prefeito Senhor Mansueto de Castro Serafini Filho, o Presidente da Câmara de Vereadores Senhor Ilson Kayser, o Presidente do Conselho Municipal de Desportos Senhor Mário de Sá Mourão, o Diretor do Conselho Municipal, Senhor Joel Bastos de Souza, o Senhor Odilo Tirelli, Gerente do Banco do Brasil, o Senhor Lauro Finco, Presidente da AABB, num jantar maravilhoso, sendo então procedida a solenidade de entrega de troféus a todos os participantes.
Entrega ao campeão feito pelo Prefeito Vitório Trêz
Fica a sugestão a todos que promovem competições nacionais; municiem os órgãos de imprensa com material relativo ao evento. Recebemos, naquela ocasião, muitos jornais de diversas localidades, dando conhecimento da divulgação do evento, sendo muito produtivo para alavancarmos o movimento no sul do país.

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

FOLHEANDO VELHOS JORNAIS

A Folha da Tarde Esportiva, publicada em oito de fevereiro de 1969, trazia a reportagem de lavra de Guiomar Chies, com o título Futebol de Mesa leva o nome de Caxias para o norte do país. Seu texto era o seguinte: O futebol de mesa teve um início pitoresco em Caxias do Sul. Hoje em dia, é a cidade gaúcha onde esse esporte é mais aperfeiçoado e seus praticantes recebem correspondências de muitos locais, solicitando informes sobre esta atraente modalidade esportiva.
Como surgiu. O futebol de mesa surgiu em Caxias há muitos anos atrás. Adauto Sambaquy, um dos grandes entusiastas brasileiros recorda-se que, em 1947, já o praticava com uma particularidade: empregavam-se botões de roupa, lixados nas bordas, jogando-se escondido, nos porões das casas, a fim de fugir da gozação dos maiores e mesmo dos que viam nisto algo de ridículo. Já, em 1963, o movimento do futebol de mesa era grande e havia ganhado muitos adeptos. Os adultos já o praticavam. E foram dois clubes de estabelecimentos bancários que iniciaram as disputas oficiais, promovendo certames entre seus associados: Grêmio Banrisul e AABB. O primeiro intercâmbio ocorreu em junho de 1965, com técnicos de Porto Alegre. Em 1966, foi realizado um torneio com representantes da Bahia, Oldemar Seixas e Ademar Carvalho, vindos do maior centro praticante da modalidade. Em 1965, Caxias foi vice-campeã do Estado. Atualmente, centenas de pessoas o praticam na cidade, cujas idades variam entre os seis até o mais velho habitante da Pérola das Colônias.
Reportagem da Folha da Tarde Esportiva, que chegava à tarde em Caxias
Bahia e Caxias do Sul. O uso de botões comuns (puxadores) em Caxias do Sul caiu em desuso, passando a serem usados os chamados botões baianos, sendo o esporte praticado dentro do sistema daquele estado. Graças ao intercâmbio, em 1967, numa excursão ao Estado da Boa Terra, efetuada por caxienses chefiados por Adauto Sambaquy, levaram um anteprojeto das regras de futebol de mesa, sendo aceito com alegria e entusiasmo pelos conterrâneos de Ruy Barbosa. Atualmente, está sendo usada para júbilo e orgulho dos caxienses em todo o território nacional. A entidade caxiense era filiada à Federação Riograndense de Futebol de Mesa. Porém, como essa não se adaptou ao novo sistema, os integrantes da Liga de Caxias do Sul se desfiliaram e passaram a realizar intercâmbio mais acentuado com a Bahia e cidades que estivessem interessadas na implantação da modalidade dentro do novo método. O resultado até hoje é surpreendente. Somente agora é que, na capital, ao que nos consta, existe a prática do futebol de mesa baiano, graças aos componentes do Departamento do S. C. Internacional. Mas um fato causa impacto a quem presta atenção. A cobertura dos jornais baianos em relação ao futebol de mesa e, isto é interessante, o destaque quase diário que é dado ao esporte do botão com relação à Caxias do Sul. Inclusive resultados dos jogos aqui efetuados repercutem em Salvador. Nem o futebol profissional, o de campo, consegue dar tanta publicidade a Caxias do Sul, na Bahia, como futebol de mesa. Pode-se afirmar que Caxias e Bahia vivem abraçadas para o engrandecimento do esporte dos técnicos.
Confirmando essa última parte, que fala dos resultados divulgados na Bahia, possuímos um exemplar do Jornal A Tarde, de Salvador, de dezenove de agosto de 1973, que publicou a reportagem: Gaúchos viram o que a Bahia tem. Veja.
Jornal A TARDE de Salvador, que recebemos à bordo do avião da Varig. Nos sentimos o máximo...
Gaúchos viram o que a baiana tem... Torneio Bahia X RGS - 1973
Dizia a reportagem: Estarão retornando, dentro de algumas horas ao Rio Grande do Sul, os gaúchos Adauto Celso Sambaquy, Airton Dalla Rosa, Sérgio Calegari, Adaljano Tadeu Cruz Barreto e Mário de Sá Mourão, que nesta capital participaram do torneio Bahia- Rio Grande do Sul de Futebol de Mesa, em homenagem ao Sesquicentenário da Independência da Bahia. Os jogos foram disputados na sede da Associação Bahiana de Futebol de Mesa e pela Bahia tomaram parte Oldemar Seixas, José Ataíde, Luiz Alberto Magalhães, Geraldo Holtz e Guilherme José. Os baianos, melhor ambientados e jogando bem conseguiram a maioria das vitórias, num atestado que na “Boa Terra” ainda se pratica um excelente Futebol de Mesa. Além dos jogos na Associação Bahiana, os gaúchos, que na capital ficaram hospedados no Hotel São Bento, visitaram também a Liga da Pituba, onde seu presidente Otávio Dantas ofereceu um coquetel aos visitantes, premiando-os com o troféu simpatia. Na quinta feira, os caxienses realizaram vários amistosos na sede particular de Orlando Nunes, enfrentando entre outros: Valter Motta (que perdeu de 5 a 1 para Sambaquy), Vital Cavalcanti, Guilherme Freitas, Raimundo Gantois e muitos outros técnicos da Liga da Barra, tudo num ambiente de excelente camaradagem.
Todos estão com as camisas de seus clubes.

Torneio Salvador Bahia – 1973
A Associação Bahiana quem tem como Presidente de Honra: José Ataíde e como Presidente: Oldemar Seixas, contou com a colaboração do Hotel São Bento, na hospedagem, e a Casa Esportiva que ofertou os troféus do torneio. Com a vinda dos gaúchos, ficaram ainda mais fortes os laços de amizade que unem os desportistas dos dois estados, tendo o Futebol de Mesa, mais uma vez servido para aproximar ainda mais os baianos dos gaúchos, pioneiros da Regra Brasileira.
Adauto Sambaquy vem lutando no sul do Brasil, para divulgar o moderno Futebol de Mesa que já está sendo disputado nas cidades de Cachoeira do Sul, Giruá, Arroio Grande, Passo Fundo, Pelotas, Rio Grande, Canguçú, Santana do Livramento, Bagé e até no exterior, nas cidades de Pozadas, na Argentina e Encarnacion, no Paraguai.
Na sequência da reportagem, dá os resultados da Liga Bahiana, Liga do Barbalho e Liga Brasil.
O inédito nisso tudo é que recebemos o jornal a bordo do avião da Varig que nos traria ao Rio Grande, de regresso. O pessoal que lia o jornal, dentro do avião, saudava-nos com alegria. Foi o nosso momento de glória, pois nas mesas não ganhamos nada.
Nós trocamos as camisas de nossos times pela da Liga Caxiense de Futebol de Mesa
Por essa razão é que eu sempre defendi o apoio da mídia ao futebol de mesa. Seríamos muito maiores do que já somos se houvesse mais pessoas que mostrassem aos leitores o que é o futebol de mesa, a grande paixão dos brasileiros. Nossos blogs são lidos por botonistas, mas os jornais e revistas são manuseados por milhares de pessoas e isso contribui para o conhecimento de todos. 
Em Caxias, na época em que estávamos implantando a Regra Brasileira, com essas reportagens que saiam seguidamente nos jornais locais, a Rádio Difusora Caxiense abriu um horário para que apresentássemos nossas idéias, e por algum tempo o Paulo Valiatti e eu nos revezamos, dando os resultados da rodada, falando de jogos e convidando as pessoas a nos visitarem. Despertamos o interesse em muitos botonistas que estavam parados e que voltaram a praticar o seu esporte favorito. Lendo esses recortes de jornais, a saudade me faz viajar no tempo e voltar àquela época glamorosa em nossas vidas.

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

NERIVALDO LOPES, O BOTONISTA PARAIBANO

Os caminhos do futebol de mesa nos proporcionam amizades maravilhosas e que perduram através dos tempos. Eu colecionei amigos desde os meus primeiros passos no futebol de mesa e a grande maioria foi conservada com carinho e emoção. Já falei do meu reencontro com o meu primeiro adversário no Campeonato Brasileiro de 1970, realizado no ano passado em Salvador. Hoje, relembro um dos meus adversários do segundo Campeonato Brasileiro, realizado de 13 a 17 de agosto de 1971, na adorável cidade de Recife, capital do Pernambuco.
Copa Guarabira FM (1970) - Em 1º plano Haroldo, Fernando e Zezinho Chinês
Por incrível coincidência, o resultado desse jogo foi idêntico ao que realizei com o José Inácio, de Sergipe: 1 x 1. Meu adversário era o também bancário Manoel Nerivaldo Lopes que jogava com o Náutico, o Timbú pernambucano. Foi um jogo em que a maior oportunidade que surgiu foi a amizade que travamos. Por algum tempo nos correspondemos, mas a distância se encarregou de nos deixar afastados. Isso até que, recebendo uma mensagem religiosa muito profunda e cativante, procurei o nome de seu autor: Nerivaldo Lopes.
Nerivaldo (Naut.) X Guarabira (Toinho Amarelo) - 1970
A curiosidade tomou conta e não sosseguei até enviar um e-mail para o endereço indicado, o qual dizia o seguinte: Manoel Nerivaldo Lopes, gostaria de saber se você é originário da Paraíba, se trabalhou no Banco do Brasil e se jogava futebol de mesa? A razão é que eu conheci Manoel Nerivaldo Lopes em 1971, quando participamos do 2º Campeonato Brasileiro de Futebol de Mesa em Recife (Pernambuco). Na ocasião, seu time era o Náutico e estava representando a Liga Guarabirense de Futebol de Mesa, de Guarabira (Paraíba). Em 13 de agosto de 1971, jogamos uma partida no Geraldão e o resultado foi o de 1 x 1. Eu sou o Adauto Celso Sambaquy e ficaria feliz em saber que encontrei um amigo que há muitos anos não tinha notícias. Forneci-lhe o meu e-mail e solicitei: Por favor, dê retorno.
II Nordestão- Aracaju - SE - 1970 - A partir da esq - Guilherme, Zezinho, Nerivaldo, Zequinha
Poucos dias após, recebo a resposta tão aguardada:
Meu caro Sambaquy,
Sou eu mesmo. Que alegria abrir a minha caixa de mensagens e encontrar seu e-mail! Você só pode ter recebido uma das mensagens que formato e mando para os meus contatos, não é? Só pode ter sido. Fico muito feliz. Saí de Guarabira em abril de 1976, transferido, a pedido para João Pessoa onde nasci. Aposentei-me no início de outubro de 1990. Ao chegar aqui, tentei implantar nossa regra, mas não foi possível. Daí aos poucos fui perdendo o interesse pelo futebol de mesa, e hoje é uma boa lembrança de minha vida.
Tenho bem presentes em minha mente aqueles gostosos momentos em Recife, quando do 2º Campeonato Brasileiro. Tenho saudade de meu saudoso compadre, Ivan Lima, falecido em 1994. Bons tempos aqueles! 
Ivan Lima e Nerivaldo Lopes
Você ainda mora em Brusque? Ainda conservo comigo as cartas recebidas de vários colegas de Ligas, inclusive cópia da ata de fundação da Associação Brasileira de Futebol de Mesa, datada de 19.07.1976, onde você aparece como Conselheiro representante de Santa Catarina. Lá estão os nomes de Oldemar Seixas, do falecido Jomar Moura, José Nunes Orcelli, Getúlio Reis de Faria e outros. Caro amigo, que bom esse reencontro, ainda que pela internet. A seguir informa seu novo e-mail e seu endereço.
Desde então, religiosamente, mantemos correspondência, sendo que para as suas mensagens religiosas criei uma pasta e, sempre que alguma coisa me perturba, vou até lá e leio algumas, as quais sempre me mostram como devo proceder.
A cada vitória do meu Inter, recebo parabéns, não me esquecendo de retribuir quando o Fluminense vence, pois, além de Náutico, meu amigo é tricolor carioca roxo. Pois agora, depois de ler tantas colunas escritas, manifestou sua vontade de possuir um time do Fluminense e até detalhou a forma como devem ser os botões. A parte baixa deverá ser branca e, na parte superior, um circulo bordô, outro branco e no centro verde, com o distintivo e numeração. Se não praticar, pelo menos vai ter a alegria de possuir um time de seu coração de torcedor. Solicitei ao meu filhão Daniel Maciel que seja o intermediário, pois é quem mantém contato com o seu Manoel de Rio Grande, o fabricante dos botões de sua preferência. Espero que chegue às minhas mãos o modelo e enviar para aprovação ao Nerivaldo, pois será o meu presente a esse amigo querido.
Nerivaldo tem uma família linda e, na atualidade, desempenha as funções de pastor evangélico, razão pela qual produz suas mensagens que edificam muito a fé das pessoas. Uma amizade que perdura há quarenta e dois anos, feita através do futebol de mesa, é algo que deve ser enaltecida sempre. Assim como ele, muitos outros amigos são preservados em meu coração. Existe algo melhor do que isso? Algum troféu substitui algo tão grandioso e tão forte em nossa existência? Não, por isso eu sempre afirmo que as minhas maiores conquistas foram as amizades que o esporte que escolhi praticar me proporcionou.
Nerivaldo Lopes e sua esposa na comemoração de suas bodas.

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ANTONIO MARIA DELLA TORRE – O ARTISTA DO FUTEBOL DE MESA

Della Torre - o grande presidente da FPFM
Nascido em Casa Branca, interior de São Paulo, no ano de 1942, conheceu e se apaixonou pelo futebol de mesa aos onze anos de idade, em 1953. Antonio, assim como todos, começou furtando os botões de casacos de suas tias, os quais eram mais vistosos que os dos casacos de sua mãe. Desde cedo se iniciou na fabricação de botões, usando tampas de vidros de pomadas e cremes, deixando sua mãe zangada. Com sua atividade construtiva, juntou-se aos “cobras” da Congregação Mariana Casa-branquense, onde havia uma formidável mesa de cerejeira inteiriça. Conseguiu alguns campeonatos e vice-campeonatos. Em 1963, transferiu-se para a capital paulista, ingressando na empresa C.Itho do Brasil, ocupando a gerência financeira. O futebol de mesa ficou parado até o dia em que, ao chegar a casa, encontrou seus dois filhos jogando num Estrelão. Os garotos tinham jeito para a coisa e isso o motivou a comprar uma mesa oficial.
Frequentou a escola de Árbitros da Federação Paulista de Futebol, onde se formou e atuou até 1968, desligando-se dela por princípios e pela falta de tempo devido à sua atividade profissional. Em sua empresa, um dia, encontrou um rapaz com alguns botões. Interessou-se, pois havia voltado a jogar em casa com seus filhos e foi informado que o Riachuelo era o clube onde ele poderia praticar. No sábado seguinte, lá estava ele, assustado com tanta técnica.
Filiou-se ao Riachuelo, onde conheceu Geraldo Cardoso Décourt, de quem se tornou o grande amigo. Junto com Décourt fundam o BOTUNICE (Botonistas Unidos de Campos Elíseos) e ajuda a reativar a Federação Paulista de Futebol de Mesa que estava desativada, tornando-se o seu presidente mais ativo até hoje. Isso aconteceu em 1983, seu grande ano, pois, em São José dos Campos, é realizado extra oficialmente o primeiro campeonato brasileiro na regra de 12 toques e Della Torre torna-se campeão brasileiro, seguido por Libório (Brasília) e Muradian (São Paulo).
Della Torre e Décourt em uma solenidade de entrega de prêmios
Foi um excelente fabricante de botões, de troféus maravilhosos e o maior divulgador do futebol de mesa que já conheci. Dele vieram inúmeros times de vidrilhas para Santa Catarina, os quais foram distribuídos para jovens interessados na prática do esporte.
Décourt, Della Torre e Sambaquy
Tive a felicidade de privar dessa amizade, principalmente quando realizai um curso em São Paulo e por lá permaneci durante um mês. Conheci, com ele, todos os clubes da capital paulista e de Santos, pois Della Torre passava pelo Hotel onde estava hospedado e me carregava, juntamente com Décourt, durante as noites e nos finais de semana, quando então me conduzia até sua residência em São Bernardo do Campo. Além de um artista na confecção de botões, troféus, mesas, bolinhas tinha uma veia poética. É dele a poesia que transcrevo e que encontrei no livro Botoníssimo, de Ubirajara Godoy Bueno.

O ÚLTIMO TREINO.
Doutor Teixeira, médico excelente
Sem preconceito de cor ou crença,
Atendia pobres, ricos e todo doente
Que lhe viesse com qualquer doença.

Amável e muito bom esposo,
Pai de duas saudáveis crianças,
Era esse o médico bondoso
Daquela cidade e toda vizinhança.

Não cobrava aos pobres a consulta,
Recebendo bem a quem a seu consultório viesse;
Rico ou pobre, analfabeta ou culta,
Era querido por gente de toda espécie.

Certa vez, estando de viagem a família
Fica o bom médico só com o seu outro amor;
BOTÕES DE JOGO: uma verdadeira pilha
Treinava e treinava só, mas com ardor.

Chutes a gol, toques e passes;
Jogadas e táticas queria aprimorar,
Tinha do botonista muita classe,
Que era bom vê-lo jogar.

Mas a caminho, numa estrada,
Enquanto o doutor se divertia,
Levada pela mãe, uma criança desenganada
A casa do doutor se dirigia.

Chegando à porta da moradia
A mulher chamava e batia palmas
Doutor Teixeira, alheio a tudo, os botões polia
E aos pequenos discos se entregava com alma.

O bom médico absorto em sua diversão
Não escutava a mulher que à porta batia
Ao ponto de ter sangrado a mão
E, lá dentro, o remédio que ele tão bem conhecia.

Meia hora depois, ainda chamava a mulher aflita,
E a criança que a febre queimava
Fechando os olhos, perdeu a vida
Diante da família do médico, que regressava.

Trazido pela esposa, o doutor a cena via
E ao constatar que a criança estava morta
Confessou que salvá-la poderia
Se houvesse, há dois minutos batido à porta.

Ao saber que a mulher estivera tanto tempo ali na rua
O médico caiu em prantos
Chorava... chorava, como se a criança fosse sua
E, a todos, causava espanto.

Dirigiu-se à sala do treinamento
Pegando os botões, no lixo, com ira os atirou
E com triste e firme pensamento
Doutor Teixeira NUNCA MAIS JOGOU!

Infelizmente esse amigo tão querido nos deixou ainda na flor da idade. Com 56 anos de idade, em 27 de setembro de 2000, um enfarte fulminante o levou para o grande time de botonistas celestiais. Ficaram saudades imensas desse coração bondoso, desse amigo fantástico que impulsionou o futebol de mesa paulista a essa potência que todos nós admiramos na atualidade.
Torneio no Circulo Militar em Curitiba 09 1982, foi nossa ultima participação juntos.
Aparecem Décourt (2), Della Torre (4) e Sambaquy (8).


Até a semana que vem, se Deus permitir.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

CLAIR MARQUES – O PIONEIRO DE RIO GRANDE

Clair Marques campeão de tudo, colorado
A história do Clair poderia ser a história do futebol de mesa de Rui Grande. Menino ainda, na festa de seus 12 anos, entre todos os presentes, o que mais prendeu sua atenção foi o que seu cunhado lhe entregou. Eram dois times de plástico, dois “times de futebol de botão”, um do América e outro do Flamengo, ambos do Rio de Janeiro. Naquele 15 de novembro de 1956, Clair foi inoculado com o vírus que nunca mais o abandonou.
No piso de madeira da sala de sua residência deixou seu “amor à primeira vista” desfilar, fazendo suas partidas.
Depois disso passou a jogar contra os moleques de sua rua. Dentre eles, sobressaía-se o Robertinho. Era deixar uma bola sem cobertura e tinha de buscar a bolinha dentro de seu gol. Foi o Robertinho que o levou até a Padaria Sul América, onde, após o expediente, seu proprietário Antonio Leite, seu filho Antoninho, Rominho, Grilo, Zé, Walter José Ferreira (o campeão da Padaria) e o próprio Robertinho disputavam campeonatos organizados com uma regra idealizada por eles mesmos. Foi lá que ele foi apresentado aos botões puxadores. Conseguiu dinheiro e adquiriu um time de puxadores, o qual denominou de Real Madrid, o time mais destacado do mundo na época. Todos eles acompanhavam as notícias sobre esses times na Revista do Esporte. Com o Real Madrid na mão, passou a frequentar a Padaria e seu jogo evoluiu consideravelmente.
Mas, a grande dificuldade era e sempre foi a Regra. Cada grupo tinha a sua. E o sonho do Clair era ver todos jogarem com uma única regra, pois assim, em qualquer canto da cidade, os jogos seriam iguais.
Foi então que tomou conhecimento de que, em Porto Alegre, no ano de 1961, um abnegado desportista chamado Lenine Macedo de Souza havia fundado uma Federação Riograndense de Futebol de Mesa. Juntou dinheiro e mandou vir duas mesas oficiais, passando a jogar na Regra Gaúcha. Com isso, participavam de torneios e campeonatos promovidos pela Federação, o que os obrigou a criar uma Liga Riograndina de Futebol de Mesa.
Clair em início de carreira, com Lenine Macedo de Souza e o primeiro campeão riograndino Hallal
Algum tempo depois, toma conhecimento, através da Revista do Esporte, da reportagem “Bahia dá lições de Futebol de Botões”, de autoria de Oldemar Dórea Seixas. Escreve a ele e recebe resposta. Assim é criada a nossa amizade, pois Oldemar nos coloca em contato.
No ano de 1966, ano da comemoração do primeiro aniversário da Liga Caxiense de Futebol de Mesa, Clair é convidado e comparece, tendo a oportunidade de conhecer os dois baianos que estavam presentes: Oldemar Seixas e Ademar Carvalho. O torneio é realizado na Regra Gaúcha, com brilhantismo e com a participação dos dois convidados baianos. Após o torneio, é feita uma demonstração do então futebol baiano, com botões padronizados, num campo muito maior dos oficiais da Regra Gaúcha. Da mesma forma que os demais assistentes, fica maravilhado com a plástica desenvolvida e as jogadas de efeito.
Campeonato Gaúcho em 1966, Caxias do Sul. Clair aparece no meio da foto
Nesse mesmo ano, voltou a Caxias, agora em dezembro. Volta a Caxias, pois a Liga Caxiense fora incumbida de realizar o Campeonato estadual de 1966. Acompanha-o Gerson Marcílio Soares Garcia que disputaria a modalidade juvenil, sagrando-se campeão. Clair não foi muito bem nesse campeonato.
No ano seguinte, em 1967, o estadual de futebol de mesa realiza-se em Rio Grande, sua terra natal. São suas as palavras que foram incluídas num trabalho maravilhoso feito pelo Rangel, no blog da AFUMECA: ”Nesse campeonato, em que terminamos no empate Enio Vogues e eu, fomos declarados campeões. Foi um campeonato estadual realizado em Rio Grande, no Esporte Clube União Fabril, que ficava localizado em frente ao portão lateral do Cemitério de Rio Grande e que já não existe mais. Eu estava em minha casa, já achando que o Lenine e seus convidados não viriam mais, quando escutei o som de fogos de artifício. Fui olhar no portão e vi que estavam se dirigindo para minha casa, num comboio de cinco ou seis carros e uma Kombi, com bandeiras da FRFM e cartazes alusivos ao campeonato estadual de futebol de mesa que seria disputado na cidade. Juntamos o pessoal de Rio Grande com os demais convidados e começamos as disputas do certame.
A finalidade maior desse campeonato estadual, a qual descobri posteriormente, era a de promover os novos botões plásticos “Lione” da fábrica do Lenine Macedo de Souza. Cada participante do campeonato teria de retirar cinco de seus botões de galalite do seu time e, obrigatoriamente, incluir outros cinco da marca “Lione”. Esse detalhe o Lenine não havia comunicado a ninguém de Rio Grande.”
Já estava em vigor a Regra Brasileira, promovida pela Liga Caxiense de Futebol de Mesa, mas os participantes da Liga Riograndina de Futebol de Mesa, diante das enormes modificações entre as duas regras, permaneceram fiéis à Regra Gaúcha. O episódio da inclusão dos botões “Lione” entre os botões escolhidos para comporem os times fez muitos ficarem bastante magoados com a Federação. Mesmo assim continuavam jogando a Regra Gaúcha.
A adesão à Regra Brasileira aconteceu a partir de 1979, quando dois amigos foram convidados a participar do Campeonato Brasileiro desenvolvido em Jaguarão. Voltaram maravilhados com tudo o que viram. Esses dois e mais um grupo de amigos fundaram a Associação Riograndina de Futebol de Mesa. Destaque especial para Ademir Freitas Duarte que confeccionou as duas primeiras mesas e sugeriu o escudo da nova entidade. Junto com Clair, estiveram desde o início: Luiz Alfredo De Boer, Carlos Alberto Perazzo, Ronir de Oliveira, Paulo Roberto Monteiro, Mário Constantino, Gilberto Pereira, Oscar Schmidt, Alfredo Brito, Douglas, Batista, Silvio Silveira e Alam Casartelli. Nascia a entidade mais vitoriosa em terras farroupilhas.
Clair e Silvio dois fundadores da ARFM
Em 1992, transferido para Paranaguá (PR), sem ter adversários, para por quatorze anos de jogar. Até que, em 2005, alertado por Sérgio Oliveira, descobre em Curitiba o botonista carioca Mauro Paluma. Esse havia recebido de Cláudio Savi Guimarães uma mesa oficial e a montara no Clube D. Pedro II. Mauro havia descoberto Jeferson Mesquita, gaúcho de Uruguaiana e que militara o COP – Pelotas. Após a adesão de Clair, apareceram Marcelo Silva, Alexandre Magnus e Luiz Henrique Ramalho da Roza, ensejando a fundação da AFUMTIBA – Associação de Futebol de Mesa de Curitiba e arredores.
AFUMTIBA - Curitiba
Clair tem inúmeras conquistas, dentre as quais destacaremos Tetra Campeão da ARFMN (1979, 1983, 1987 e 1991), Campeão do Torneio Fronteirão (1983), Bi-Campeão da Taça RS (1980-1985).
Somos amigos desde 1966, quando o recebi em minha casa em Caxias do Sul, já que ele participaria do Torneio de aniversário da Liga Caxiense. Lembro ainda que, ao final do torneio, reunimo-nos com os baianos no Alfred Hotel para discutirmos a possibilidade de unificarmos as duas regras. Foi um dos baluartes na idéia dessa unificação. Ao deixá-lo na Rodoviária, de onde partiria de retorno à sua cidade, escutávamos o jogo Flamengo de Caxias x Rio Grande e, no final do jogo, o vovô do futebol brasileiro marcou um gol e ele berrou de alegria. Ao saber que eu torcia pelo Flamengo, pediu desculpas, mostrando o seu caráter digno.
Esse é o Clair Marques, mais uma bandeira do botonismo gaúcho, a quem envio o meu abraço.
Gaúchos em Itapetinga BA. Clair é o penúltimo da esquerda para a direita
agachados.
Guido e Clair, duas lendas do futmesa

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

UMA FAMÍLIA FORMADA NO FUTEBOL DE MESA: OS PREZZI

Talvez eu devesse iniciar essa história da maneira tradicional. ... Era uma vez, um grupo de jovens moleques que foram incentivados a jogar botão, depois que o presidente da Federação Riograndense de Futebol de Mesa fez uma demonstração da Regra Gaúcha no clube onde se reuniam. Era o início dos anos sessenta e o Recreio Guarany acolhia os filhos de seus associados em um salão, onde Lenine Macedo de Souza deixara uma mesa, cavaletes, traves com redinhas, dois times e algumas bolinhas adquiridos pelo clube. Os moleques tinham agora um incentivo maior para os seus campeonatos, pois um adulto estivera explicando as diversas nuances da regra que era praticada de forma oficial no estado.
No clube residia o senhor Frederico Dalla Rosa (Fritz) que ocupava o cargo de ecônomo. Seu Fritz tinha dois filhos: Airton, que desde cedo se tornara um grandioso e imbatível botonista e Sirlei, uma loirinha linda, estudante e recatada. Airton logo se torna um dos líderes desse grupo e reúne seus amigos em ferrenhos campeonatos. Dentre eles, um quase vizinho, futuro odontólogo, chamado Nelson Prezzi. Outros também frequentavam o ambiente esportivo e eram amigos, como Ângelo Slomp, Almir Manfredini, Ariovaldo Sebben, Carlos Berti, Jorge Compagnoni, Ivan Puerari, José Raul de Castilhos, Marcos Meregalli, Milton Berti, Paulo Leonardi, Sérgio Silva (garçom do clube) e Vitório Menegotto.
A nossa história se inicia nas disputas ferrenhas e barulhentas desse grupo que acabou chamando a atenção da Sirlei que foi dar uma espiadela, matando a curiosidade. Naquele momento, o anjinho Cupido estava, também, interessado na barulheira da molecada e, de cima olhando, quando observou a chegada da Sirlei e vislumbrou o olhar que foi trocado entre ela e o Nelson Prezzi. Foram duas flechas certeiras que atravessaram os dois corações. A partir daí, Nelson, quem era sempre um aspirante ao título máximo, passara a ser um mero figurante, com um interesse único de estar presente no clube e, Sirlei, que nunca se interessara pelo futebol de mesa, a torcedora mais apaixonada, não perdendo uma só reunião da molecada.
Desse primeiro olhar passaram ao flerte, ao namoro, ao noivado e finalmente ao casamento. O futebol de mesa criava o primeiro casal de apaixonados que daria muitos frutos.

Da união de Nelson e Sirlei vieram Sheila, Rogério e Alexandre
Tempos depois, dessa linda união veio a bela Sheila, o robustinho Rogério e o fininho Alexandre. Nelson continuava a praticar o futebol de mesa, agora com menos constância, devido aos seus estudos, sua formatura e a prática da odontologia. Seu Penharol ainda fazia estragos nos diversos campeonatos que disputava, tanto na Liga Caxiense, como nos campeonatos do Guarany e do Vasco da Gama.
Quando o Rogério e o Alexandre estavam com cinco ou seis anos, presenteou-lhes com uma mesa de botão (Xalingão). Ao Rogério couberam dois times de plástico; Flamengo e Corinthians e, ao Alexandre, o Fluminense. Marcou a vida dos dois que se tornaram torcedores desses times para sempre. Como eram pequenos, os campeonatos eram realizados dentro de casa ou então na escola. Algumas vezes conseguiam permissão para visitar amigos como Daniel Pizzamiglio ou Marcelo Concli. Recortavam da revista Placar os escudinhos,  criando times diversos, aumentando as disputas internas, o que deveria causar alvoroço nas dependências da residência, pois nenhum queria perder.
Por um dever de consciência e arrependimento, tornei-me padrinho do Rogério, logo após ele ter confessado o grande trauma de sua vida. Explico melhor. Quando ele completaria o seu primeiro aniversário, a festa não pode ser realizada na ocasião, pois seus pais, junto com a Sheila estavam em Brusque, participando de um torneio de futebol de mesa, convidados que foram pela Associação Brusquense. Participaram também Airton Dalla Rosa e Luiz Ernesto Pizzamiglio, que com suas famílias prestigiavam essa entidade catarinense. Senti-me culpado, pois fora eu que os convidara. Assumi sem o consentimento da Sirlei e do Nelson a função de padrinho desse menino traumatizado.
O abandonado Rogério com a Vó Adelina curtindo seu aniversário de 1 ano
Mas, os moleques cresceram e acompanhavam os pais que se deslocavam à sede campestre do Recreio da Juventude, para onde fora levada a Liga Caxiense de Futebol de Mesa. Lá, ficavam incomodando os adultos que queriam jogar livremente, andando ao redor das mesas. Foi então que alguma mente iluminada resolveu o problema. Mandou confeccionar cavaletes com pouca altura e colocou uma mesa à disposição da piazada. Foi a glória dos moleques. Os Prezzi, Daniel Pizzamiglio, Felipe e Francisco Barreto, Fábio Crosa (sobrinho do Daniel Crosa), o filho do Marcos Zeni passaram a realizar campeonatos muito mais emocionantes do que os adultos realizavam.
                       
No final dos anos oitenta houve uma parada com o futebol de mesa em âmbito citadino. Mas, os Prezzi continuavam a usar o Xalingão, disputando inúmeros campeonatos. Na reativação da Liga, obra do Vanderlei Duarte, o Airton Dalla Rosa e o Luiz Ernesto Pizzamiglio os levaram para conhecer a nova sede. Estava situada no entroncamento da  Rua Moreira César. Era bem mais perto do que o Recreio da Juventude e os campeonatos começaram a reunir todos em igualdade. Formaram a Ala Jovem da entidade.
Rogério é presenteado pelo seu tio Airton com um time azul. Airton sempre jogou com o Cruzeiro de Minas Gerais. Ele não poderia, portanto, usar o mesmo time. Pensou em um time azul que pudesse inscrever na Liga. Depois de muitas consultas, optou por Avaí, um time da capital catarinense, campeão de 1997, na série C do Campeonato Brasileiro. Alexandre, afilhado do Luiz Ernesto Pizzamiglio, recebeu de presente um Fluminense. Surgia então a grande disputa que persiste até os dias atuais, quando os dois irmãos se encontram: Avaí x Fluminense. É um jogo sempre esperado pelo pessoal da AFM, pois todos sabem que ninguém facilita nada, um querendo quebrar o outro. Em todas as tabelas é sempre um jogo da primeira rodada, para não haver brigas na família.
Clássico realizado na Franzen
Clássico na AFM Caxias supervisionado pelo PizzaPai
Eles se reuniam às sextas feiras, sempre com a presença do Daniel Pizzamiglio que vinha de Porto Alegre e mais o Rafael, jogando até a madrugada. Era uma época em o Vanderlei abria a sede nas tardes de terças e quintas feiras, onde os dois treinavam com o mestre. Mas, quando começaram a trabalhar, a coisa ficou impossível de continuar e houve uma parada. E, nessa parada, a defecção com a ausência sempre sentida de Airton Dalla Rosa, que se afastou dos gramados de madeira e de seu pai, Nelsinho Prezzi, combatente do vício do fumo, revoltado com o costume de alguns que, no ambiente praticavam livremente a queima de tabaco. Foram duas perdas muito sentidas.
Continuavam no prédio da Rua Garibaldi, uma grande sala alugada, quando a Ala Jovem foi tremendamente reforçada com a chegada do Ednei Torresini e, especialmente, a aquisição do Daniel Maciel que levou com ele seus primos Paulo Rodrigues e Mário Vargas.
2005 - Surge uma força mais jovem na AFM Caxias
Torneio 40 anos de LCFM - Pontapé inicial da evolução
Até então as disputas eram somente locais. Houve a necessidade de se filiar à Federação Gaúcha de Futebol de Mesa, com intercâmbios com as demais agremiações, fortalecendo os laços de amizade com milhares de botonistas, não só do Rio Grande do Sul, mas de todo o país. Com isso, Caxias se torna a Capital da modalidade Liso, no Rio Grande do Sul.
As participações desses irmãos, que trazem em seu DNA o futebol de mesa, aconteceram aos poucos. Alexandre fez parte do grupo que viajou ao Espírito Santo em 2006 e em 2009 sagrou-se Campeão Gaúcho por Equipes, representando a AFM Caxias do Sul.
Os títulos da dupla são de vice-campeões em diversas competições. Alexandre foi vice na série A, B, na Copa Primus, Torneio de Inverno. Rogério foi vice na série B e duas vezes do Torneio Campos dos Bugres.
Os dois já presidiram a entidade. O Alexandre, substituindo o Vanderlei, quando teve problemas a resolver e o Rogério, que foi o presidente mais vitorioso da AFM, ficando no cargo de 2011 a 2012.
Galeria de troféus dos Prezzi
Sempre de perto Nelsinho Prezzi entrega prêmio as filhos
Realmente, a história, como num conto de fadas, mostra que o futebol de mesa conseguiu unir um botonista e a irmã de outro que, casando, aumentaram a grande família botonista gaúcha, produzindo dois excepcionais botonistas, os quais se somando às virtudes do pai e do tio, só engrandeceram o esporte dos botões nessa terra maravilhosa que é Caxias do Sul.

A minha homenagem dessa coluna é para essa família maravilhosa que guardo no meu coração desde aqueles primeiros olhares, acompanhados de longe por mim e que produziram filhos maravilhosos, os quais engrandecem o esporte e fazem com que eu possa sentir a felicidade de haver contribuído indiretamente para tudo isso.
Família Prezzi no 88º aniversário do Vô Fritz
Que Deus conserve esses amigos queridos para todo o sempre.

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.