domingo, 17 de fevereiro de 2013

... NO INÍCIO ERA CELOTEX, HOJE BOTÃOBOL...


Meus amigos, hoje lhes falarei de uma modalidade de futebol de mesa que exige uma habilidade imensa e que retrata o movimento inicial de Geraldo Cardoso Décourt. Trata-se do Botãobol ou Regra Pernambucana, tratada pelos seus adeptos como a Rainha das Regras.
A regra surgiu, ao que tudo indica, nos idos de 1940, à Rua Barão de São Borja, no bairro Boa Vista, na residência de Aldiro Santos, mas se pode dizer, sem sombras de dúvidas, ser o maior nome do celotex de todos os tempos. Seus primeiros praticantes foram Armando Francisco, conhecido entre seus amigos como “Cabeça de Ataúde”, Pedrinho Palmatória, Vilaça, Chico Aborto Barbosa, Mário Sandes, Severino Vieira, René Cezar, esse oriundo do bairro São José, onde se jogava o celotex na regra chamada de “pingue-pongue”.
Com a mudança de residência de Aldiro Santos, passaram a jogar em sua nova residência, à Rua Montevidéu, também na Boa Vista. Passou a ser jogada também na Rua da Glória, naquele bairro, na residência dos familiares de Severino Vieira, já nos anos 50.
Nova safra de botonistas surge: Gilvan Carvalho, Humberto Simons, Clóvis Sandes, Fernando “Gordo da Pipoca”, Adão Pinheiro que, juntamente, com os decanos, passaram a difundir a regra em outros bairros de Recife.
Destaque maior foi para o bairro de Estância onde pontificavam nomes como o de Lula Pesão, Hemetério, seu irmão mais novo, Paulo Felinto Gouveia de Albuquerque, o mais fanático praticante do celotex de Recife, seus primos Murilo, Aldênio e Rominho que praticavam a regra “leva-leva”.
Somente no início dos anos 60, com a união de vários grupos de botonistas foi adotada definitivamente a Regra da Boa Vista, a famosa regra da bola de borracha, da tabelinha.
Destaque para os botonistas Valdir Santa Clara, Valterlys, os irmãos Abdon e Abiud e a nova safra: Ribamar, Marcos Securinha, Tuca, Silvio Romero, Adilson, Paulinho, Nadilson, entre outros. Muitos desses botonistas se espalharam, sendo que alguns já fizeram a grande viagem e outros deixaram de jogar. Mas os que continuaram levaram a sério a prática do celotex e procuram fazer com que as novas gerações perpetuem o futebol de mesa, nome pelo qual vai ficando conhecido.
Foi de propósito de que se deixou de citar Armando Francisco, o “Armandinho”, filho de um dos pioneiros do celotex e que deu uma dinâmica maior ao esporte, mesmo utilizando outra regra, fazendo com que o jogo de botões conseguisse mais e mais adeptos. Graças à atuação desse maravilhoso botonista, a Regra da Boa Vista foi levada para as dependências do Santa Cruz Futebol Clube, onde terá grande expansão.
A Regra da Boa Vista, ou Pernambucana, ou então Botãobol viveu seu período áureo, no Recife, na década de 60. Depois, foi uma longa pausa, somente retornando nos anos 90. Seus adeptos, entretanto, frequentavam os terraços e quintais de alguns amigos, jogando inúmeras partidas de botão. A volta com força total foi em 1999, já no Santa Cruz, com a Regra de 12 Toques. Com muito esforço, os amantes do celotex conseguiram introduzir uma mesa. Depois, tudo ficou mais fácil. Acabaram engolindo a Regra de 12 toques e criaram a Associação Pernambucana de Futebol de Mesa, isso em 2002. A partir daí, nunca mais pararam.
Regra Pernambucana, a garotada reunida para comemorar...
O Quadro de Competições, recebidos de seu presidente Abiud Gomes, apresenta, desde o ano 2000, mais de noventa competições, variando o nome de seus competidores, o que atesta a paridade que existe entre seus praticantes.
O Presidente ABIUD na entrega dos prêmios aos vencedores do Campeonato
Pernambucano de 2012 (Troféu Chico Barbosa)
Acompanho assiduamente dois Blogs pernambucanos: “A Marreta” e “Chelsea F. M.”, dos botonistas Abiud Gomes e Hugo Alexandre. A Marreta foi criada como uma brincadeira que servia de motivação para os torneios e campeonatos que aconteciam no Bairro da Estância, onde Abiud morava. As edições datilografadas eram levadas todos os sábados para o local de jogos, que era na casa de seu irmão Abdon, já falecido, onde havia um campo. Com a Internet, influenciado pelos seus filhos, aderiu ao blog, que acabou herdando o nome do informativo. O lema do jornaleco era: a luta eterna pela sobrevivência do celotex.
Troféu Chico Barbosa
Em ambos são descritas em detalhes as partidas da rodada. Acompanhei o último campeonato, iniciado em 2012 e terminado no dia 2 de fevereiro de 2013, que destinaria ao campeão o troféu CHICO BARBOSA. O mesmo nome de um dos decanos que iniciaram a prática nos anos 40. Rodada a rodada, termina o primeiro turno com a vitória do Chelsea, de Hugo Alexandre. Classificaram-se os melhores colocados para a disputa da chave ouro e os demais para a prata. Se vencesse, o Chelsea seria campeão antecipado. Foi então que surgiu Marcos Antonio Silva, carinhosamente chamado de Marcos Bundão pelos seus camaradas e com o seu Botafogo foi destruindo os sonhos de todos os adversários. Venceu de forma invicta a chave Ouro e, com a vantagem do empate, foi decidir com o Hugo Alexandre o campeonato de 2012.
Lance da final Botafogo x Chelsea
Mário fazendo seu Botafogo "pegar fogo"
 Lendo a descrição da partida, tanto na Marreta como no blog do Chelsea, sentimos que deve ter sido um jogo arrepiante, cujo resultado final 5 x 5 mostra a gana que motivava os dois adversários. Chegou a estar 5 x 3 para Marcos, mas Hugo Alexandre conseguiu empatar pouco antes do toque final do relógio. Como o empate favorecia o Botafogo, o troféu Chico Barbosa descansa em sua galeria. Mas o detalhe mais importante disso tudo, e que não pode passar despercebido, é que o campeão recebeu o troféu que homenageava seu pai que o introduziu no futebol de mesa. Não é necessário dizer que lágrimas correram de muitos olhos.
Bota Campeão, recebendo o troféu com o nome de seu pai. Emocionante...
Olhando e admirando as fotos, vejo um grupo de pessoas de minha geração, cabeças brancas que jogam e brincam como se fossem meninotes. Então, temo pela continuidade do Botãobol, pois cada um de nós tem o seu tempo definido pelo Criador. Dentro de mais alguns anos serão poucos os que o praticarão. Sugiro aos amigos pernambucanos que carreguem seus netos, os amigos de seus netos e lhes ensinem esse espetacular esporte,  pois só sobreviverá o Botãobol, se for herdado por uma nova geração. Falo isso com a experiência de ter levado, em 1970, por ocasião do Primeiro Campeonato Brasileiro realizado em Salvador, três meninos que na ocasião contavam com 14/15 anos de idade. Quando saímos de Caxias do Sul, foram eles que deram continuidade ao sonho de uma entidade voltada ao futebol de mesa e, na atualidade, são os filhos deles que administram e jogam em Caxias do Sul.
A idéia gerada por Geraldo Décourt,em 1930, ganhou vida através de muitos meninos, os quais ainda hoje praticam com o mesmo entusiasmo o seu esporte. Por isso, acredito que não será difícil encontrar meninos que continuem a sua luta e ajudem na divulgação dessa regra que exige muito controle e perfeição no manejo da bolinha de borracha.
Até a semana que vem, se Deus permitir.
Sambaquy

domingo, 10 de fevereiro de 2013

OS PRIMEIROS TROFÉUS


Quando as disputas foram organizadas e iniciamos os campeonatos, fez-se necessário a destinação de prêmios aos vencedores. E as primeiras escolhas recaíram sobre taças que representavam aquilo que, quando meninos, admirávamos na sede do Juventude ou do Flamengo. Prateleiras cheias delas. As taças que eram confeccionadas em nossa cidade, tanto pelo Eberle como pelo Triches, passaram a ser nosso sonho de consumo.
Em nossos campeonatos, não havia cobrança de taxa de inscrição. Todos participavam gratuitamente e isso fazia com que procurássemos outros meios de angariar fundos para as compras das benditas taças. Fizemos um apanhado de preços e verificamos que, apesar de qualidade inferior, os da Triches eram mais convidativos. Foi lá que conseguimos por vários campeonatos abastecer os apetites dos botonistas caxienses.
Só que a variedade não era assim tão grande e começaram a ser repetitivos. O pessoal já olhava com desdém o prêmio e até ficava desestimulado. Urgia uma modificação. E isso foi feito. Na própria Metalúrgica Triches, começamos a adquirir peças individuais. Eram jogadores em posição de chute que, fundidos em metal e banhados em níquel ou cromo, eram-nos vendidos a preços ínfimos. Restava a nós a criatividade.

Pedaços de madeira de lei eram utilizados e neles colocados os jogadores. As peças de madeira, devidamente lixadas, laqueadas, com espaço para a colocação de uma plaquinha gravada, recebiam em seu dorso os jogadores e as bolas. A disputa voltava a ser acirrada para conseguir colocar uma delas em nossas prateleiras. Uma ocasião eu apanhei um pedaço de madeira que meu pai usava para fazer fogo no fogão à lenha, e entreguei a um amigo que tinha um torno, e dali nasceu um pedestal para um jogador, numa disputa de um torneio no Vasco da Gama. Estampo três modelos de troféus dessa época que eram super valorizados.
Quando a MAPRO, empresa que trabalhava com acrílicos (luminosos e seus derivados) que nos patrocinava, pois havíamos acordado com eles a fabricação de botões que seriam vendidos em todo o estado, observou os troféus em madeira, resolveu fabricar pequenos troféus em acrílico. Passaram a comprar os jogadores de metal e faziam a arte final. E assim foi por um bocado de tempo, de 1971 até quando saí de Caxias em 1973. Deles, tenho dois troféus que até hoje encantam quem pratica o nosso esporte. Também estarão sendo mostrados em fotografia nessa página.

Ao sair de Caxias e vir para Santa Catarina, consegui implantar o futebol de mesa na cidade de Brusque. Mas, aqui não havia a Triches para nos fornecer material para a fabricação de troféus e, por essa razão, voltamos ao mercado para a compra em Lojas especializadas em Blumenau, pois, em Brusque, na época ainda ninguém negociava taças, medalhas e troféus.
Hoje, vemos obras de arte sendo distribuídas em cada promoção realizada. Com certeza, os atuais botonistas não encontram as dificuldades que tivemos em nossa jornada, tendo de garimpar prêmios para serem distribuídos em diversas competições. Por isso, não eram muitas as competições que realizávamos no ano.
Além disso, a substituição do metal pelo plástico, além de baratear as peças, dá uma gama de qualidade maravilhosa, pois perdura o brilho das peças por muito mais tempo. Enfim, são outros tempos e a quantidade de competições aumentou, de forma tão imensa, que deve ser obedecido um calendário anual. Nem todos poderão se adequar a ele e, por essa razão, em algumas competições deverão estar de fora; mas os fominhas, aqueles que estão sempre aparecendo nas fotos dos premiados, estarão sempre presentes.
Atualmente, em muitas cidades há fabricantes de prêmios das mais diversas modalidades esportivas. Aqui em Itajaí, existe a METAL SPORT, que confecciona troféus, medalhas e placas personalizadas. Foram eles que criaram a arte e fizeram os diversos troféus dos dois Torneios que levaram o meu nome para o pessoal do Atlântico Sul/Marcílio Dias.  São peças lindas e realçam o futebol de mesa de maneira eloquente, pois em cada uma delas é salientado o nome de nosso esporte. Apresento também as imagens das duas artes.



Até a semana que vem, se Deus assim permitir.
Sambaquy

domingo, 3 de fevereiro de 2013

AS PRIMEIRAS BOLINHAS USADAS NA REGRA BRASILEIRA.


Ao final da criação da Regra Brasileira, em janeiro de 1967, a bolinha determinada para a prática do futebol de mesa seria um botão denominado “olho de peixe”, que por sinal já era utilizado em todo nordeste brasileiro.
Ao retornarmos ao Rio Grande, trazendo os exemplares da Regra, trouxemos também algumas bolinhas “olho de peixe”, julgando que teríamos facilidade em encontrar nas diversas lojas comerciais de nossa cidade. A verdade é que esse tipo de botão estava sendo abandonado pelos fabricantes, uma vez que as cuecas estavam sendo modificadas e, ao invés de serem abotoadas, usavam elástico na cintura. Com isso, tornaram-se raros os botões que conseguíamos comprar. Alguns ainda recorriam a botões em uso e os trocavam por outro tipo, juntando tudo o que conseguiam para que pudéssemos realizar nossos jogos.
Os poucos botões “olho de peixe” eram cuidadosamente manipulados, pois se tornavam raros. E a dificuldade não era só nossa. Os nordestinos começaram a reclamar da falta da mercadoria nas diversas lojas de suas cidades.
Foi então que fomos surpreendidos pelo nosso querido amigo Raymundo Antonio Rotta Vasques. Como jogávamos aos sábados, cada um de nós que possuía carro passava na casa dos demais para levá-los até as dependências da AABB. Eu sempre chegava cedo e começava a preparar as mesas. Logo em seguida, chegava o Calegari, trazendo o Vasques, seu filho Raymundinho e mais alguns botonistas que encontrava pelo caminho. Vasques colocava uma caixa na mesa e perguntava para todos o que ela continha. Palpites de que continha botões para jogar, papéis para limpar as mesas, etc. Pelo tamanho da caixa deveria ser coisa de tamanho médio.
Para nossa surpresa, Vasques abre a caixa e ela está repleta de “olhos de boi”. Milhares de bolinhas estavam ali, diante de nós, prontas para servirem em nossos jogos. Foi então que a curiosidade se estabeleceu entre todos. Afinal, cada um de nós havia percorrido quase todas as lojas da cidade à procura daquele material e ele aparecia ali com uma quantidade que poderia ser utilizada por algum fabricante de cuecas “samba- canção”.
Vasques, com a sua veia poética, narrou a epopeia dessa conquista. Tendo a manhã livre, dirigiu-se à Loja Pratavieira, portando um botão “olho de boi” na mão perguntou à balconista se ela conseguiria aquele tipo de botão para ele. Ao olhar o botão, a menina apanhou uma caixa e disse que tinha em boa quantidade. Rapidamente, Vasques ordenou que ela embrulhasse a caixa, pois ele levaria tudo. A moça ficou intrigada e perguntou curiosa o que ele faria com tantos botões.
Vasques -  dono de um raciocínio rapidíssimo, olhou para a menina e disse, sério como sempre foi: A minha esposa está fazendo uma bandeira do Brasil e vai bordá-la com esses botões. Vão colorir alguns de verde, outros de amarelo e de azul. Os brancos ficarão como estão. Assim a escola dela apresentará uma bandeira diferente no desfile de Sete de Setembro, pois essa bandeira não tremulará, ficará fixa. Será uma novidade. Você vai ter a oportunidade de ver isso com os seus olhos, quando a escola dela passar.
A menina, convencida da veracidade e da importância do assunto, embrulhou e entregou ao Vasques o tesouro de que todos nós desfrutaríamos.
Para nós, o problema estava resolvido. Cada um ficou com um punhado de botões para os seus treinos, e o restante ficou depositado na AABB.
Mas, para o restante do país, o problema estava ficando cada vez mais grave. Não existiam mais “olhos de peixe” no mercado. E o campeonato brasileiro de 1970 já estava alinhavado pelos baianos. Foi necessária a criação de uma bolinha (disquinho) que se assemelhasse ao “olho de boi”. Um botonista sergipano conseguiu criar esse tipo de bolinha e foi prontamente adotada por todos os praticantes da Regra Brasileira. Recebemos o material oriundo da Bahia, para onde havíamos enviado uma boa quantidade de botõezinhos que, entretanto, ficaram sem uso, pois a adoção do disquinho foi obrigatória a todos nós.
A bolinha utilizada na Regra Gaúcha era côncava e, dependendo do lado que parasse na mesa, não levantava do chão, sendo então impossível fazer gol sobre o arqueiro. Esse nosso disquinho era próprio para ser erguido e cobrir o goleiro, sempre que fosse chutada por um botão atacante.
Para matar a saudade, estou postando o restante que ficou em meu poder de “olhos de boi”, pois  servirá algum dia para ilustrar um museu do futebol de mesa. Afinal, foi com ela que iniciamos a nossa caminhada pelas mesas do Brasil. Na foto, estão os “olhos de boi”, as bolinhas utilizadas na regra gaúcha e os disquinhos, alguns em cores adotadas pela Confederação para os diversos campeonatos realizados.

Recordando a façanha do querido amigo Vasques, companheiro inseparável do Calegari, bate uma saudade de um tempo maravilhoso em que solidificamos amizades, através do futebol de mesa. Saudade de amigos e façanhas incríveis.

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.
Sambaquy

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

CINQUENTENÁRIOS DOS MEUS PRIMEIROS TROFÉUS.


Apesar de ter tomado conhecimento do futebol de mesa no ano de 1947, quando migrava dos dez para os onze anos, foram necessários dezesseis anos até que o primeiro e o segundo troféus viessem embelezar a minha galeria incipiente.
Depois de haver sido inoculado com o vírus do botão, por muito tempo os jogos eram sempre amistosos, pois não havia ninguém disposto a organizar um campeonato. Até os iniciávamos na rua onde morávamos, mas não chegavam à terceira ou quarta rodada, pois muitos desistiam quando acumulavam derrotas.
Lembro que existiam várias mesas para os jogos. Na casa do Renato Toni, numa sala do prédio do pai do Vasco Balen, no porão do Rui Pratavieira, do Luiz Pozza e até na garagem da casa do Vanderlei Prado, na alfaiataria do pai do José Roque Aloise; mas, a melhor de todas era a do Enio Chaulet, bem próxima das atuais em que desenvolvemos a Regra Brasileira.
O importante para cada um de nós era jogar. Em cada um desses lugares, o número de botonistas era reduzido, pois só havia uma mesa e todos ansiavam estar com o time depositado nela, praticando o nosso futebol de botões. Os convites eram restritos e a cada semana variava, razão pela qual tínhamos de manter contato com diversos donos de estádios para saber onde jogaríamos. Uma semana na casa do Rui Pratavieira, na outra, lá no Bairro São Pelegrino, na garagem do Vanderlei Prado, depois da aula, na alfaiataria Aloise, no sábado pela manhã, na casa do Pozza. Na residência do Renato Toni e na sala do Vasco Balen, por estarem nas imediações de nossas moradias; todos os dias, até que as mães deles nos expulsassem, pois já era hora de dormir.
E assim foi passando a nossa infância. Chegamos à idade de aborrescentes e com ela os namoricos e o futebol de campo. O futebol de mesa ficou meio de lado. Meus times, entretanto, estavam guardados em uma caixa, com parafina, flanela e uma infinidade de recordações maravilhosas.
Como praticávamos o futebol de campo e muitos dos nossos companheiros também foram adeptos do futebol de botão, em uma tarde, véspera de um jogo de nosso Corinthians Caxiense, reunimo-nos na casa do Maggi, um dos nossos laterais direito. Passamos a tarde jogando e eu havia levado meus dois times: Vasco da Gama e Corinthians. Ao final dos nossos jogos, resolvemos dar uma volta pelo centro da cidade. Para não carregar a caixa, deixei-a na casa do Maggi. Naquela noite a casa se incendiou e meus dois times viraram cinzas.
Resolvi que iria refazer meus esquadrões, mas dessa vez com outro nome. Escolhi o time de minha preferência na cidade: G. E. Flamengo. Fui comprando os botões de diversos botonistas, ganhando de outros alguns craques, pois haviam parado de praticar. Lembro ainda que o Raul Stalivieri, meu colega de curso de contabilidade do Carmo, presenteou-me com um botão preto, logo batizado de Vitor, em homenagem ao centro avante do Flamengo e, depois, do Grêmio. E quantas alegrias o Vitor me presenteou quando, em 1963, começamos a jogar organizadamente em campeonatos.
Pois foi o Vitor, junto com Fredolino, Danga e Cinza, Remi, Sinval e Ghizoni, Tim, Zizinho, Vitor, Sady e Lady, com os reservas Bruxo e Torres que me fizeram levantar o primeiro e o segundo troféus, ganhos no ano de 1963. O primeiro como campeão do certame da AABB, e o segundo sendo o terceiro lugar no Campeonato Caxiense. Foram os dois primeiros a embelezarem uma prateleira em minha casa. E eram minúsculos, pois o de campeão mede onze centímetros de altura, e o de terceiro lugar, nove centímetros apenas. Mas, com que alegria eu os mostrava aos amigos que me visitavam, pois foram angariados em uma competição com mais de uma dezena de adversários em cada uma delas.
Depois desses, em todas as competições realizadas, os troféus foram aparecendo, cada vez melhores e maiores. Mas o valor sentimental deles é inigualável. Quantos botonistas atuais não somam a idade que esses dois primeiros troféus já atingiram.
A minha história começa em 1947, mas só em 1963 passa a ser mostrada definitivamente para as pessoas que admiram esse esporte.
Saliente-se que, naquela época, os únicos fabricantes de taças e medalhas eram a Metalúrgica Abramo Eberle e a Metalúrgica Triches. Geralmente, escolhíamos a segunda, pois os preços eram mais acessíveis às nossas parcas reservas e pela amizade que o pessoal que fazia o serviço de Banco tinha conosco. Sempre conseguíamos um bom desconto e, muitas vezes, um troféu de brinde que nos ajudava muito.
Quanta saudade desse meio século de tantas andanças e conquistas pelo mundo do futebol de mesa. Tenho certeza de que seria capaz de fazer tudo novamente, pois o resultado disso tudo é comprovado em cada competição a que assisto pessoalmente, ou na Internet, lendo ou vendo o esforço de alguns abnegados botonistas em enviar imagens. Por essa razão, leio todos os blogs que posso, pois sinto em cada um deles a continuidade daquilo que me moveu à realização  do que pude fazer em prol desse esporte que apaixona as pessoas.

Viva o futebol de mesa.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir.
Sambaquy

domingo, 20 de janeiro de 2013

RUDY VIEIRA DO FUTMESA PARA O FUTSAL NACIONAL


Conheci o Rudy Vieira nos anos cinquenta, pois eu gostava de acompanhar os jogos do G. E. Flamengo, e ele sendo sobrinho do famoso Chicão, estava sempre no campo, ao lado de seus pais. Depois se formou em um curso pelo SENAI de Caxias e o quadro dos formandos ficou em exposição na vitrine de um famoso fotógrafo, na Avenida Júlio de Castilhos.
Não tinha conhecimento de que praticasse o futebol de mesa. Com surpresa, ao ser convidado pelo presidente do Vasco da Gama F. C., meu amigo Mário Ruaro De Meneghi, para colocar uma mesa na sede social, dando chances aos associados do clube praticar esse esporte que estava sendo introduzido na cidade, já na Regra Brasileira, encontro o Rudy aficionado pelo futebol de botão. Na época, Rudy era um vigoroso zagueiro da equipe tricampeã caxiense e vivia na sede que estava situada na Rua Moreira César.

No princípio, apresentei o futebol de mesa praticado com times padronizados, fabricados na Bahia, e o efeito foi instantâneo. Rudy era um dos mais entusiasmados. Seu time escolhido foi o BANGÚ, do Rio de Janeiro. O reduto do Vasco reúnia uma gama de excelentes botonistas, tais como Boby Ghizoni, Mario Ruaro, Nelson Ruaro, Aldemiro Ernesto Ulian, Nelson Prezzi, Jonas Rizzi, Augusto Peletti, Jorge Rezende e o próprio Rudy.
Bangu (Rudy) X Internacional (Puccinelli) jogo válido pelo caxiense de 1971
De 1967 até o ano de 1971, participou de todos os campeonatos realizados no Vasco e também caxienses. Mas, a sua participação mais importante foi quando fez parte da equipe que representou o Rio Grande do Sul no segundo campeonato brasileiro da modalidade, realizado em Recife.
Gaúchos em Recife 1971 -  Sambaquy e Marcos (de pé). Walmor, Ruaro e Rudy (Sentados)
Sempre foi um profundo conhecedor do futebol e por essa razão tinha facilidade em assimilar o futebol de mesa, fazendo grandes jogos contra todos os adversários.

Foi então que apareceu o futebol de salão em sua vida e o futebol de mesa perdeu espaço.
Iniciou praticando-o para depois tornar-se dirigente, passando pelo próprio Vasco, Enxuta, Carlos Barbosa (onde se encontra desde 1988 até hoje) e Seleção Nacional.
Com a sua visão apurada, tornou-se um maravilhoso supervisor.  Na seleção nacional, com a mudança de treinador, a equipe foi modificada. Mas, Rudy jamais se afastou do futebol de salão e continuou na imbatível equipe de Carlos Barbosa.
Ao tomar conhecimento de que a nova comissão técnica da seleção brasileira será anunciada no próximo dia 29, agora sob o comando de Nei Pereira que treinou uma das primeiras formações da Enxuta, de Caxias, na década de 1980. Com isso, a supervisão voltará a ser ocupada pelo Rudy Vieira, cuja competência sempre foi marco determinante para o sucesso de nossas conquistas.
Rudy - Da ACBF de volta para a Seleção de Futsal
O futebol de mesa deve orgulhar-se de saber que, no esporte inventado em nosso país, um botonista que marcou época nas mesas caxienses e brasileiras estará brilhando e, quem sabe, divulgando o nosso esporte favorito, pois, se aparecer frente à televisão e mostrar um de seus craques banguenses, farão despertar o desejo de muitos botonistas de retornarem às mesas.
Desejamos sucesso ao Rudy, um irmão que prezamos e admiramos pela sua garra e inteligência. Que possamos comemorar juntos mais algumas conquistas desse esporte que agita os corações de todos os brasileiros. O futsal e o futmesa fazem a diferença, pois nos transformam em vencedores  sempre.
Boa sorte, meu irmão Rudy, e que em alguma promoção da AFM Caxias, possas estar presente, para abrilhantar as disputas e entrelaçar a alegria de sermos brasileiros.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

OS HOMENS DE LIVRAMENTO

Quando da realização do XXIX Centro Sul, na cidade de Caxias do Sul, conversando com o amigo Careca, de Florianópolis, foi-me solicitado que escrevesse sobre a trajetória de DIRNEI BOTTINO CUSTÓDIO. Na ocasião, expliquei que todos os documentos coletados por mim, haviam sido encadernados, estando sob a custódia da AFM Caxias. Portanto, faltar-me-iam argumentos para relatar as poucas vezes que estivemos juntos, pois nosso conhecimento se deu após a minha fixação em Santa Catarina. Aqui, na cidade de Brusque, onde realizamos o primeiro Centro Sul, estivemos juntos. Foi ele o campeão desse primeiro Torneio, escrevendo seu nome com letras de ouro na relação dos campeões. Lembro ainda de que, ao ser entrevistado por um radialista esportivo do local, o qual, acariciando a sua enorme barriga, afirmou em alto e bom som: Para vencer no futebol de mesa não é necessário estar em forma física.
Lembro-me de ter estado, quando presidente da Associação Brasileira de Futebol de Mesa, como convidado em Porto Alegre, no campeonato Estadual de 1980. Lá conversamos muito com o Custódio, mas, depois disso, nunca mais nos encontramos.
O amigo Sérgio Oliveira, que esteve presente nessa conversa com o Careca, há algum tempo me enviou uma nota, afirmando que o pessoal de Livramento estava retornando à atividade e, dentro de pouco tempo, estariam disputando os certames promovidos pela nossa Federação. Aliado a essa notícia alegre, vejo, no Blog do Guido, o COMPLEXO J. OLIVEIRA FUTEBOL DE MESA. Aos amigos do Futebol de Mesa... Santana do Livramento. Rio Grande do Sul, Brasil e Mundo afora, onde o colorado Oliveira coloca Livramento em contato com o mundo inteiro.
Isso fez com que eu voltasse a julho de 2010 e procurasse no site do S. C. Internacional, uma notícia que chamou a minha atenção, na época. Reproduzo-a na íntegra:


Torcedor apresenta o futebol de mesa do Inter.
Por Marcos Bertoncello (texto) e Alexandre Lops (foto), diretamente e Rivera, no Uruguai.
Richard Oliveira é o nome dele, mais conhecido como “Bolita”. Este torcedor do Internacional é um jogador profissional de futebol de mesa (ou de botão, popularmente falando). Oliveira esteve no hotel da concentração colorada, na manhã deste domingo, para mostrar seu acervo de times de botões do clube. Destacou com muita emoção a equipe de 2006, campeã da Copa Libertadores da América. Cada peça, personalizada por ele mesmo, continha o nome e a foto do ídolo. Sobre jogadores, o fanatismo ficou voltado a Clemer e Fernandão.
Coincidência ou não, logo depois de comentar isso, Clemer apareceu na sala de estar do hotel. O preparador de goleiros do Inter posou para fotos com o fã e conheceu toda a sua história. “É uma realização para eu falar com um cara como o Clemer que me trouxe tantas felicidades”, reconheceu Richard Oliveira.
Morador de Santana do Livramento, o “Bolita” é formado em engenharia civil e joga futebol de mesa desde os nove anos. Todos os sábados, o seu pessoal se reúne para organizar um campeonato de botão.
Ao meu amigo Careca, fico devendo algo mais consistente sobre essa figura mágica do Dirnei Custódio, mas, para isso, necessito que me seja repassado um histórico onde possa definir conquistas, realizações, atividades desenvolvidas, pois não posso basear-me em nossos poucos encontros, a fim de enaltecer os feitos memoráveis desse pioneiro batalhador que tanto fez pelo nosso esporte.
Por hoje, ilustro a coluna com a foto do Richard Oliveira, com o seu ídolo Clemer e seus maravilhosos craques colorados.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ROBERTO CAGLIARI GRAZZIOTIN E SEU PRADENSE F. C.


Até mesmo o Alex Degani deve ter um adversário que engrossa o caldo contra ele. Pois bem, o meu sempre foi o Roberto Grazziotin. Iniciamos juntos no ano de 1963, disputando os campeonatos Bancário, Caxiense e da AABB. Ao todo, jogamos “oficialmente” dezessete vezes. Na regra Gaúcha o predomínio sempre foi dele, mas na Brasileira deu-se o reverso da medalha. No computo geral tenho sete vitórias, quatro empates e seis derrotas.
Grazziotin Jovem
No primeiro campeonato bancário o Grazziotin não obteve classificação, mas no certame da AABB ele começou a mostrar as garras. Fui campeão com uma única derrota: 2 x 0 para o Pradense no primeiro turno. No segundo turno um empate em 1 x 1. No caxiense de 1963 ele não conseguiu classificação.
No ano seguinte (1964), o Grazziotin foi o 3º colocado no campeonato bancário, tendo me vencido por 2 x 1. Já no campeonato da AABB ficamos empatados ao término do campeonato, o que necessitou uma nova partida. Dessa vez a vitória foi minha por 3 x 1, e, com ela consegui o bi-campeonato da entidade. Grazziotin seria o vice campeão. No caxiense, nova vitória sobre o meu adversário, dessa vez por 2 x 0.
Em 1965, eu lutava pelo tri campeonato da AABB, mas, com quatro derrotas (Vasques, Calegari, Fabião e Grazziotin) tive de me contentar com o troféu de vice. Na ultima rodada, com o Grazziotin já campeão, joguei bastante e o venci por 4 x 1. Mas não adiantou muito, pois o troféu maior já  era sua propriedade. No bancário conseguimos ficar em quinto lugar, juntos. No caxiense ele não teve classificação.
No ano seguinte, ficou sem classificação no certame caxiense. Não conseguia ter bom desempenho quando jogava fora da AABB, por isso nunca se classificava bem nos certames da cidade. Também teve pífio desempenho no certame da AABB. Mesmo assim, nas quatro partidas realizadas em 1966, duas partidas pelo bancário e duas pela AABB. Uma vitória e uma derrota em cada certame.
No advento da Regra Brasileira, que foi adotada em 1967, jogamos em 26 de março e empatamos em 3 x 3.
Após a mudança do tipo de botões, da mesa maior, ele resolveu dedicar-se mais ao Aero Club de Caxias e ficou por algum tempo sem jogar. Voltou somente em maio de 1973, com o seu temível Pradense. Jogamos no dia 18, vitória do G. E. Flamengo por 1 x 0. No mês de junho, no dia 4, novo empate em 0 x 0. Voltamos a jogar em 10 de setembro, com nova vitória do tricolor caxiense, dessa feita por 2 x 0. Nosso ultimo jogo foi realizado em 24 de novembro de 1973, com novo empate em 0 x0.
Realmente o Grazziotin sempre foi um osso duro de roer. Defendia o seu Pradense, verde e branco de sua terra natal: Antonio Prado, com a fleuma de um verdadeiro filho daquele torrão gaúcho. A escalação de seu time sempre foi motivo de gozação, assim como o era o centro avante do Vasques, chamado de CARDEAL. O eterno gozador Vicente Sacco dizia que o Vasques dava banho de geléia real no centro avante, antes dos jogos.
Mas, a escalação do Pradense era a seguinte: ROSPO, POLENTA E OZELETTI, MINESTRON, IMBAMBIO E SALTA PLANTE, VIN DE CHIODO, FURBO, CUDEGHIN, FORMAIO GRATÁ E MAL DE PANSA, o que traduzido para o nosso idioma daria, mais ou menos o seguinte: SAPO, POLENTA E PASSARINHO, SOPÃO, ABOBADO E PULA PLANTA (Macaco), VINHO DO PREGO (que fechava o orifício da pipa, para fazer a prova), ESPERTO, EMBUTIDO DE PORCO (carne, pele, cabeça e temperos), QUEIJO RALADO E DOR DE BARRIGA.
Graziontin Atual
Acredito que essas lembranças serão eternizadas, pois foram muitas as ocasiões em que jogávamos brincando, e, assim solidificávamos a nossa amizade que veio dos bancos escolares. Grazziotin e eu estudamos juntos na Escola Normal Duque de Caxias, e terminamos nosso curso de 1954. Desde então, a cada comemoração organizada pelas meninas, nos encontramos e podemos recordar esses momentos felizes que passamos, num tempo muito mais seguro do que o atual. Apesar das dificuldades da época, pois tínhamos de comprar os troféus, ora na Metalúrgica Triches, ora na Metalúrgica Eberle (esses eram mais caros, apesar de serem mais bonitos), mandar gravar com o Helio Mambrini e passarmos alguns meses namorando-os, para conseguir guardar em nossas galerias. Não havia, naquele tempo, campeonatos disseminados como na atualidade. Mas, graças a Deus, os amigos são guardados até hoje em nosso coração. E Roberto foi um desses amigos que jamais se alterou em momento algum. Sempre foi calmo de dedicado, um perfeito cavalheiro.

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.