segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

CINQUENTENÁRIOS DOS MEUS PRIMEIROS TROFÉUS.


Apesar de ter tomado conhecimento do futebol de mesa no ano de 1947, quando migrava dos dez para os onze anos, foram necessários dezesseis anos até que o primeiro e o segundo troféus viessem embelezar a minha galeria incipiente.
Depois de haver sido inoculado com o vírus do botão, por muito tempo os jogos eram sempre amistosos, pois não havia ninguém disposto a organizar um campeonato. Até os iniciávamos na rua onde morávamos, mas não chegavam à terceira ou quarta rodada, pois muitos desistiam quando acumulavam derrotas.
Lembro que existiam várias mesas para os jogos. Na casa do Renato Toni, numa sala do prédio do pai do Vasco Balen, no porão do Rui Pratavieira, do Luiz Pozza e até na garagem da casa do Vanderlei Prado, na alfaiataria do pai do José Roque Aloise; mas, a melhor de todas era a do Enio Chaulet, bem próxima das atuais em que desenvolvemos a Regra Brasileira.
O importante para cada um de nós era jogar. Em cada um desses lugares, o número de botonistas era reduzido, pois só havia uma mesa e todos ansiavam estar com o time depositado nela, praticando o nosso futebol de botões. Os convites eram restritos e a cada semana variava, razão pela qual tínhamos de manter contato com diversos donos de estádios para saber onde jogaríamos. Uma semana na casa do Rui Pratavieira, na outra, lá no Bairro São Pelegrino, na garagem do Vanderlei Prado, depois da aula, na alfaiataria Aloise, no sábado pela manhã, na casa do Pozza. Na residência do Renato Toni e na sala do Vasco Balen, por estarem nas imediações de nossas moradias; todos os dias, até que as mães deles nos expulsassem, pois já era hora de dormir.
E assim foi passando a nossa infância. Chegamos à idade de aborrescentes e com ela os namoricos e o futebol de campo. O futebol de mesa ficou meio de lado. Meus times, entretanto, estavam guardados em uma caixa, com parafina, flanela e uma infinidade de recordações maravilhosas.
Como praticávamos o futebol de campo e muitos dos nossos companheiros também foram adeptos do futebol de botão, em uma tarde, véspera de um jogo de nosso Corinthians Caxiense, reunimo-nos na casa do Maggi, um dos nossos laterais direito. Passamos a tarde jogando e eu havia levado meus dois times: Vasco da Gama e Corinthians. Ao final dos nossos jogos, resolvemos dar uma volta pelo centro da cidade. Para não carregar a caixa, deixei-a na casa do Maggi. Naquela noite a casa se incendiou e meus dois times viraram cinzas.
Resolvi que iria refazer meus esquadrões, mas dessa vez com outro nome. Escolhi o time de minha preferência na cidade: G. E. Flamengo. Fui comprando os botões de diversos botonistas, ganhando de outros alguns craques, pois haviam parado de praticar. Lembro ainda que o Raul Stalivieri, meu colega de curso de contabilidade do Carmo, presenteou-me com um botão preto, logo batizado de Vitor, em homenagem ao centro avante do Flamengo e, depois, do Grêmio. E quantas alegrias o Vitor me presenteou quando, em 1963, começamos a jogar organizadamente em campeonatos.
Pois foi o Vitor, junto com Fredolino, Danga e Cinza, Remi, Sinval e Ghizoni, Tim, Zizinho, Vitor, Sady e Lady, com os reservas Bruxo e Torres que me fizeram levantar o primeiro e o segundo troféus, ganhos no ano de 1963. O primeiro como campeão do certame da AABB, e o segundo sendo o terceiro lugar no Campeonato Caxiense. Foram os dois primeiros a embelezarem uma prateleira em minha casa. E eram minúsculos, pois o de campeão mede onze centímetros de altura, e o de terceiro lugar, nove centímetros apenas. Mas, com que alegria eu os mostrava aos amigos que me visitavam, pois foram angariados em uma competição com mais de uma dezena de adversários em cada uma delas.
Depois desses, em todas as competições realizadas, os troféus foram aparecendo, cada vez melhores e maiores. Mas o valor sentimental deles é inigualável. Quantos botonistas atuais não somam a idade que esses dois primeiros troféus já atingiram.
A minha história começa em 1947, mas só em 1963 passa a ser mostrada definitivamente para as pessoas que admiram esse esporte.
Saliente-se que, naquela época, os únicos fabricantes de taças e medalhas eram a Metalúrgica Abramo Eberle e a Metalúrgica Triches. Geralmente, escolhíamos a segunda, pois os preços eram mais acessíveis às nossas parcas reservas e pela amizade que o pessoal que fazia o serviço de Banco tinha conosco. Sempre conseguíamos um bom desconto e, muitas vezes, um troféu de brinde que nos ajudava muito.
Quanta saudade desse meio século de tantas andanças e conquistas pelo mundo do futebol de mesa. Tenho certeza de que seria capaz de fazer tudo novamente, pois o resultado disso tudo é comprovado em cada competição a que assisto pessoalmente, ou na Internet, lendo ou vendo o esforço de alguns abnegados botonistas em enviar imagens. Por essa razão, leio todos os blogs que posso, pois sinto em cada um deles a continuidade daquilo que me moveu à realização  do que pude fazer em prol desse esporte que apaixona as pessoas.

Viva o futebol de mesa.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir.
Sambaquy

domingo, 20 de janeiro de 2013

RUDY VIEIRA DO FUTMESA PARA O FUTSAL NACIONAL


Conheci o Rudy Vieira nos anos cinquenta, pois eu gostava de acompanhar os jogos do G. E. Flamengo, e ele sendo sobrinho do famoso Chicão, estava sempre no campo, ao lado de seus pais. Depois se formou em um curso pelo SENAI de Caxias e o quadro dos formandos ficou em exposição na vitrine de um famoso fotógrafo, na Avenida Júlio de Castilhos.
Não tinha conhecimento de que praticasse o futebol de mesa. Com surpresa, ao ser convidado pelo presidente do Vasco da Gama F. C., meu amigo Mário Ruaro De Meneghi, para colocar uma mesa na sede social, dando chances aos associados do clube praticar esse esporte que estava sendo introduzido na cidade, já na Regra Brasileira, encontro o Rudy aficionado pelo futebol de botão. Na época, Rudy era um vigoroso zagueiro da equipe tricampeã caxiense e vivia na sede que estava situada na Rua Moreira César.

No princípio, apresentei o futebol de mesa praticado com times padronizados, fabricados na Bahia, e o efeito foi instantâneo. Rudy era um dos mais entusiasmados. Seu time escolhido foi o BANGÚ, do Rio de Janeiro. O reduto do Vasco reúnia uma gama de excelentes botonistas, tais como Boby Ghizoni, Mario Ruaro, Nelson Ruaro, Aldemiro Ernesto Ulian, Nelson Prezzi, Jonas Rizzi, Augusto Peletti, Jorge Rezende e o próprio Rudy.
Bangu (Rudy) X Internacional (Puccinelli) jogo válido pelo caxiense de 1971
De 1967 até o ano de 1971, participou de todos os campeonatos realizados no Vasco e também caxienses. Mas, a sua participação mais importante foi quando fez parte da equipe que representou o Rio Grande do Sul no segundo campeonato brasileiro da modalidade, realizado em Recife.
Gaúchos em Recife 1971 -  Sambaquy e Marcos (de pé). Walmor, Ruaro e Rudy (Sentados)
Sempre foi um profundo conhecedor do futebol e por essa razão tinha facilidade em assimilar o futebol de mesa, fazendo grandes jogos contra todos os adversários.

Foi então que apareceu o futebol de salão em sua vida e o futebol de mesa perdeu espaço.
Iniciou praticando-o para depois tornar-se dirigente, passando pelo próprio Vasco, Enxuta, Carlos Barbosa (onde se encontra desde 1988 até hoje) e Seleção Nacional.
Com a sua visão apurada, tornou-se um maravilhoso supervisor.  Na seleção nacional, com a mudança de treinador, a equipe foi modificada. Mas, Rudy jamais se afastou do futebol de salão e continuou na imbatível equipe de Carlos Barbosa.
Ao tomar conhecimento de que a nova comissão técnica da seleção brasileira será anunciada no próximo dia 29, agora sob o comando de Nei Pereira que treinou uma das primeiras formações da Enxuta, de Caxias, na década de 1980. Com isso, a supervisão voltará a ser ocupada pelo Rudy Vieira, cuja competência sempre foi marco determinante para o sucesso de nossas conquistas.
Rudy - Da ACBF de volta para a Seleção de Futsal
O futebol de mesa deve orgulhar-se de saber que, no esporte inventado em nosso país, um botonista que marcou época nas mesas caxienses e brasileiras estará brilhando e, quem sabe, divulgando o nosso esporte favorito, pois, se aparecer frente à televisão e mostrar um de seus craques banguenses, farão despertar o desejo de muitos botonistas de retornarem às mesas.
Desejamos sucesso ao Rudy, um irmão que prezamos e admiramos pela sua garra e inteligência. Que possamos comemorar juntos mais algumas conquistas desse esporte que agita os corações de todos os brasileiros. O futsal e o futmesa fazem a diferença, pois nos transformam em vencedores  sempre.
Boa sorte, meu irmão Rudy, e que em alguma promoção da AFM Caxias, possas estar presente, para abrilhantar as disputas e entrelaçar a alegria de sermos brasileiros.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

OS HOMENS DE LIVRAMENTO

Quando da realização do XXIX Centro Sul, na cidade de Caxias do Sul, conversando com o amigo Careca, de Florianópolis, foi-me solicitado que escrevesse sobre a trajetória de DIRNEI BOTTINO CUSTÓDIO. Na ocasião, expliquei que todos os documentos coletados por mim, haviam sido encadernados, estando sob a custódia da AFM Caxias. Portanto, faltar-me-iam argumentos para relatar as poucas vezes que estivemos juntos, pois nosso conhecimento se deu após a minha fixação em Santa Catarina. Aqui, na cidade de Brusque, onde realizamos o primeiro Centro Sul, estivemos juntos. Foi ele o campeão desse primeiro Torneio, escrevendo seu nome com letras de ouro na relação dos campeões. Lembro ainda de que, ao ser entrevistado por um radialista esportivo do local, o qual, acariciando a sua enorme barriga, afirmou em alto e bom som: Para vencer no futebol de mesa não é necessário estar em forma física.
Lembro-me de ter estado, quando presidente da Associação Brasileira de Futebol de Mesa, como convidado em Porto Alegre, no campeonato Estadual de 1980. Lá conversamos muito com o Custódio, mas, depois disso, nunca mais nos encontramos.
O amigo Sérgio Oliveira, que esteve presente nessa conversa com o Careca, há algum tempo me enviou uma nota, afirmando que o pessoal de Livramento estava retornando à atividade e, dentro de pouco tempo, estariam disputando os certames promovidos pela nossa Federação. Aliado a essa notícia alegre, vejo, no Blog do Guido, o COMPLEXO J. OLIVEIRA FUTEBOL DE MESA. Aos amigos do Futebol de Mesa... Santana do Livramento. Rio Grande do Sul, Brasil e Mundo afora, onde o colorado Oliveira coloca Livramento em contato com o mundo inteiro.
Isso fez com que eu voltasse a julho de 2010 e procurasse no site do S. C. Internacional, uma notícia que chamou a minha atenção, na época. Reproduzo-a na íntegra:


Torcedor apresenta o futebol de mesa do Inter.
Por Marcos Bertoncello (texto) e Alexandre Lops (foto), diretamente e Rivera, no Uruguai.
Richard Oliveira é o nome dele, mais conhecido como “Bolita”. Este torcedor do Internacional é um jogador profissional de futebol de mesa (ou de botão, popularmente falando). Oliveira esteve no hotel da concentração colorada, na manhã deste domingo, para mostrar seu acervo de times de botões do clube. Destacou com muita emoção a equipe de 2006, campeã da Copa Libertadores da América. Cada peça, personalizada por ele mesmo, continha o nome e a foto do ídolo. Sobre jogadores, o fanatismo ficou voltado a Clemer e Fernandão.
Coincidência ou não, logo depois de comentar isso, Clemer apareceu na sala de estar do hotel. O preparador de goleiros do Inter posou para fotos com o fã e conheceu toda a sua história. “É uma realização para eu falar com um cara como o Clemer que me trouxe tantas felicidades”, reconheceu Richard Oliveira.
Morador de Santana do Livramento, o “Bolita” é formado em engenharia civil e joga futebol de mesa desde os nove anos. Todos os sábados, o seu pessoal se reúne para organizar um campeonato de botão.
Ao meu amigo Careca, fico devendo algo mais consistente sobre essa figura mágica do Dirnei Custódio, mas, para isso, necessito que me seja repassado um histórico onde possa definir conquistas, realizações, atividades desenvolvidas, pois não posso basear-me em nossos poucos encontros, a fim de enaltecer os feitos memoráveis desse pioneiro batalhador que tanto fez pelo nosso esporte.
Por hoje, ilustro a coluna com a foto do Richard Oliveira, com o seu ídolo Clemer e seus maravilhosos craques colorados.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

ROBERTO CAGLIARI GRAZZIOTIN E SEU PRADENSE F. C.


Até mesmo o Alex Degani deve ter um adversário que engrossa o caldo contra ele. Pois bem, o meu sempre foi o Roberto Grazziotin. Iniciamos juntos no ano de 1963, disputando os campeonatos Bancário, Caxiense e da AABB. Ao todo, jogamos “oficialmente” dezessete vezes. Na regra Gaúcha o predomínio sempre foi dele, mas na Brasileira deu-se o reverso da medalha. No computo geral tenho sete vitórias, quatro empates e seis derrotas.
Grazziotin Jovem
No primeiro campeonato bancário o Grazziotin não obteve classificação, mas no certame da AABB ele começou a mostrar as garras. Fui campeão com uma única derrota: 2 x 0 para o Pradense no primeiro turno. No segundo turno um empate em 1 x 1. No caxiense de 1963 ele não conseguiu classificação.
No ano seguinte (1964), o Grazziotin foi o 3º colocado no campeonato bancário, tendo me vencido por 2 x 1. Já no campeonato da AABB ficamos empatados ao término do campeonato, o que necessitou uma nova partida. Dessa vez a vitória foi minha por 3 x 1, e, com ela consegui o bi-campeonato da entidade. Grazziotin seria o vice campeão. No caxiense, nova vitória sobre o meu adversário, dessa vez por 2 x 0.
Em 1965, eu lutava pelo tri campeonato da AABB, mas, com quatro derrotas (Vasques, Calegari, Fabião e Grazziotin) tive de me contentar com o troféu de vice. Na ultima rodada, com o Grazziotin já campeão, joguei bastante e o venci por 4 x 1. Mas não adiantou muito, pois o troféu maior já  era sua propriedade. No bancário conseguimos ficar em quinto lugar, juntos. No caxiense ele não teve classificação.
No ano seguinte, ficou sem classificação no certame caxiense. Não conseguia ter bom desempenho quando jogava fora da AABB, por isso nunca se classificava bem nos certames da cidade. Também teve pífio desempenho no certame da AABB. Mesmo assim, nas quatro partidas realizadas em 1966, duas partidas pelo bancário e duas pela AABB. Uma vitória e uma derrota em cada certame.
No advento da Regra Brasileira, que foi adotada em 1967, jogamos em 26 de março e empatamos em 3 x 3.
Após a mudança do tipo de botões, da mesa maior, ele resolveu dedicar-se mais ao Aero Club de Caxias e ficou por algum tempo sem jogar. Voltou somente em maio de 1973, com o seu temível Pradense. Jogamos no dia 18, vitória do G. E. Flamengo por 1 x 0. No mês de junho, no dia 4, novo empate em 0 x 0. Voltamos a jogar em 10 de setembro, com nova vitória do tricolor caxiense, dessa feita por 2 x 0. Nosso ultimo jogo foi realizado em 24 de novembro de 1973, com novo empate em 0 x0.
Realmente o Grazziotin sempre foi um osso duro de roer. Defendia o seu Pradense, verde e branco de sua terra natal: Antonio Prado, com a fleuma de um verdadeiro filho daquele torrão gaúcho. A escalação de seu time sempre foi motivo de gozação, assim como o era o centro avante do Vasques, chamado de CARDEAL. O eterno gozador Vicente Sacco dizia que o Vasques dava banho de geléia real no centro avante, antes dos jogos.
Mas, a escalação do Pradense era a seguinte: ROSPO, POLENTA E OZELETTI, MINESTRON, IMBAMBIO E SALTA PLANTE, VIN DE CHIODO, FURBO, CUDEGHIN, FORMAIO GRATÁ E MAL DE PANSA, o que traduzido para o nosso idioma daria, mais ou menos o seguinte: SAPO, POLENTA E PASSARINHO, SOPÃO, ABOBADO E PULA PLANTA (Macaco), VINHO DO PREGO (que fechava o orifício da pipa, para fazer a prova), ESPERTO, EMBUTIDO DE PORCO (carne, pele, cabeça e temperos), QUEIJO RALADO E DOR DE BARRIGA.
Graziontin Atual
Acredito que essas lembranças serão eternizadas, pois foram muitas as ocasiões em que jogávamos brincando, e, assim solidificávamos a nossa amizade que veio dos bancos escolares. Grazziotin e eu estudamos juntos na Escola Normal Duque de Caxias, e terminamos nosso curso de 1954. Desde então, a cada comemoração organizada pelas meninas, nos encontramos e podemos recordar esses momentos felizes que passamos, num tempo muito mais seguro do que o atual. Apesar das dificuldades da época, pois tínhamos de comprar os troféus, ora na Metalúrgica Triches, ora na Metalúrgica Eberle (esses eram mais caros, apesar de serem mais bonitos), mandar gravar com o Helio Mambrini e passarmos alguns meses namorando-os, para conseguir guardar em nossas galerias. Não havia, naquele tempo, campeonatos disseminados como na atualidade. Mas, graças a Deus, os amigos são guardados até hoje em nosso coração. E Roberto foi um desses amigos que jamais se alterou em momento algum. Sempre foi calmo de dedicado, um perfeito cavalheiro.

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

FINAL DE ANO – MENSAGEM



Há dois anos, escrevi salientando o porquê de não haver um despertador que nos faça acordar em determinada época de nossa vida. Afinal, a evolução tecnológica está sempre desafiando o nosso conhecimento trazendo novidades maravilhosas que ficam à nossa disposição.
Todos nós temos o nosso próprio cinema em casa, com as modernas TVs, podendo assistir o filme que desejarmos, a qualquer hora do dia. Há poucos anos o cinema era mudo, em preto e branco, e funcionava em locais escolhidos, e à noite. Há bem pouco tempo, tínhamos de solicitar à uma telefonista, a ligação para a cidade vizinha, coisa que demorava pelo menos umas seis a oito horas, com grandes dificuldades em escutar o outro lado da linha. Hoje falamos ao mundo inteiro em um pequeno celular, que carregamos em nossos bolsos. Hoje já trocamos coração, fígado, pulmões, rins, olhos, evitando sermos considerados mortos antes do tempo.
Entretanto, tudo isso ainda não conseguiu nos fazer retornar à nossa juventude, aos anos em que nada nos detinha em que desafiávamos a tudo e a todos. Acredito que seja esse o maior enigma que tira o sono dos cientistas e inventores. Por essa razão ainda não existe o tal despertador que nos faça acordar com quinze anos, disposto a viver tudo o que já vivemos novamente.
Será que isso seria bom? Não acredito muito, pois com o tempo, nós fomos adquirindo sabedoria, experiência e, em nossa caminhada nos defrontamos com toda série de pessoas que marcaram nossos passos. Nada do que ficou no passado poderá ser modificado. O que fizemos de bom vai perdurar para sempre, mas nossos erros nos acompanharão indefinidamente, pois a cada erro cometido tivemos a chance de aprender.
E se ao retornar, caso isso fosse possível, será que não nos desvirtuaríamos do caminho que percorremos? Voltando, será que eu encontraria as mesmas pessoas que comigo gostavam de jogar botão? E se não as encontrasse, teria eu perseverado nesse esporte? Teria encontrado tantos amigos, e, com eles sonhado, criado e difundido o futebol de mesa?
São coisas que não fazem mais a minha cabeça. Se escrevi em 27 de dezembro de 2010 sobre essa possibilidade, esses dois anos que se passaram, fizeram mudar meu pensamento.
Na mensagem de final de ano passado, abordei a oportunidade que a vida nos dá de sermos úteis àqueles que nos são afins. Baseado nesse princípio, que afugenta a hipótese egoísta de voltar ao passado e fazer a caminhada novamente, vejo-me como sendo uma pessoa útil aos meus amigos botonistas. Hoje eu não consigo mais ser competitivo, pois me falta o vigor, tão necessário para continuar na luta por títulos. Mas, sobra-me a vontade de ajudar, de incentivar e de mostrar a todos o quão foi difícil essa caminhada. Caminhada em um tempo cheio de contrariedades, dificuldades imensas tanto no sentido de divulgação como no sentido de apoio e incentivo.
Hoje, com o advento da Internet, a comunicação tornou-se imediata. Falamos com o mundo num piscar de olhos, mostramos fotos e filmes no momento em que os eventos estão sendo realizados. Hoje, existem pessoas envolvidas no mercado que o futebol de mesa fez nascer. Fabricam-se botões, goleiros, mesas, réguas, bolinhas, troféus dando chances para que pessoas possam viver disso, criando suas famílias, graças ao sonho de alguns idealistas que pensavam alto no desejo de reunir brasileiros de norte ao sul, do oeste ao leste.
E vendo isso, fruto do esforço voluntário de botonistas anônimos, sinto que não haveria necessidade de voltar e fazer coisas diferentes. O mundo é assim mesmo. Fizemos essa gigantesca roda girar e isso nos basta.
A minha vida está ligada indelevelmente ao futebol de mesa. Meu tempo está ficando menor, tenho certeza disso, pois numa relação de adversários que constam em meu arquivo de jogos, quarenta e três amigos já partiram para o mundo espiritual. A cada ano, novas surpresas e tristezas que nos invadem, pois mais um nos deixa, teimando em disputar o campeonato celestial. Como será quando lá chegarmos? Quem nos receberá?

Por isso, meus amigos botonistas, desejo que 2013 seja um ano pleno de realizações, nas quais vocês possam abraçar aquelas pessoas que sonham da mesma maneira que vocês o fazem. Abracem, pois não sabemos se teremos uma nova oportunidade, uma nova ocasião. Aproveitem para rir bastante, para recordar bons e maus momentos, desfrutem dessa amizade que o futebol de mesa proporcionou a vocês e sejam felizes.

Feliz 2013 a todos vocês e até a semana que vem, se Deus assim permitir.


Sambaquy

domingo, 23 de dezembro de 2012

VICENTE SACCO NETTO PRIMEIRO CAMPEÃO GAÚCHO DE FM - PARTE DOIS



Caxias do Sul.
Considero-me um nômade por excelência e tenho andado de uma a outra banda. Como dizia o poeta gaúcho, Marco Aurélio Campos, “Se a inspiração me comanda, da trilha logo me afasto e até semente do pasto replanto pelas estradas velhas, vermelhas, ao repisar no meu rasto”.
Em 1965, no mês de dezembro, aportei em Caxias do Sul. Levei comigo alguns poucos botões para alguma eventualidade, sem muita esperança, pois, afinal de contas, não conhecia ninguém lá. Erro de previsão, felizmente. Logo nos primeiros dias, conheci um cara que se tornou o meu, NÃO UM MEU, MAS O meu amigo, COMPADRE E IRMÃO DE VERDADE. Passei a desfrutar do seu generoso e agradável convívio e descobrimos algumas facetas em comum: éramos desportistas, adeptos do futebol de mesa e praticantes da fraternidade humana. Seu nome: Adauto Celso Sambaquy. Seu time: Flamengo, de Caxias. Que achado! Passei a ter um amigo em todos os momentos e aquele joguinho de botão atingiu proporções inimagináveis, transformando-se em Futebol de Mesa. Através do Samba, tomei contato com outros maravilhosos parceiros, como Chicão, o Mazzochi, o Vanazzi, o Heitor, o Grazziotin, o Paulo Fabião, o Schumacher, os irmãos Valiatti, o Pizzamiglio, o Airton, o Guizoni, o Sérgio, o Puccinelli, o Vasques e tantos outros. Dois deles, principalmente, tornaram-se marcantes pelo espírito esportivo: Sergio Calegari e Raimundo Vasques. Devo ter omito algum nome. Penitencio-me por isso. Havia dois meninos que nos acompanhavam como torcedores: o Ric e o Dalla Rosa. Este último arrebatou-me o título de campeão Estadual em 1975, na cidade de Jaguarão.
Em determinado momento, o Samba, depois de excursionar com seu time até a Bahia, oportunizou-nos o recebimento de Oldemar Seixas e do Ademar Carvalho que vieram lá da Boa Terra e nos deram verdadeira demonstração de seu talento como botonistas. Aliás, lá em 1966 já tínhamos os nossos times, que eram fabricados com acrílico e estampado  neles, as camisetas das respectivas equipes. Que maravilha! O Futebol de Mesa praticado como entretenimento – como de fato o é – aproxima as pessoas e lhes transmite muitas lições de desportividade e respeito. É ideal para os jovens, pois é uma prática sadia. O resultado dos jogos fica em plano secundário, colocando-se a convivência como ponto primordial. Sou muito grato ao Sambaquy e, é claro, ao restante da parceria de Caxias do Sul, de onde levei o esporte para Canguçú. Até hoje, sem interrupções, os canguçuenses praticam este esporte, cujas competições são ponto de destaque nos festejos de aniversário da cidade e na Semana da Pátria.
Quanto a mim, estava “adormecido” até ontem. Sim, até ontem! Hoje, encontro-me inclinado a voltar, nem que seja para rever a parceria e reabraçar uma prática que me acompanhou por mais de sessenta anos. Sabem por que devo voltar? Pois é, recebi um carinhoso telefonema do Adauto Sambaquy aconselhando-me a retornar às lides botonísticas. Foi mais longe, enviando um gentil confrade, o Luís, que me dirigiu um convite para jogar no Círculo Operário de Pelotas. Meus “atletas” já estão concentrados e devidamente parafinados.
Não tenho mais comigo as inúmeras fotos das competições e da parceria. Não tenho mais os meus troféus nem os meus velhos botões de minha fabricação. Uma enchente no ano de 2009 levou tudo por diante, até a minha mesa de botão. Levou muito mais, mas... é bom nem falar a respeito.
A voz do Sambaquy ao telefone, tão familiar, tão amiga, tão carinhosa, cutucou o coração deste vulcão inativo. Estou expelindo cinzas pelos poros e revivendo tantos momentos felizes e agradáveis. Fases da vida que me deixaram profundas e indeléveis marcas na alma e no coração. Para falar a verdade, essas marcas, inapagáveis, são muito semelhantes às daquela significativa parede.

Eu daria tudo que tivesse
Pra voltar aos tempos de criança
Ah! Meu Deus, por que a gente cresce?
Se não sai do peito essa lembrança.

Aos domingos missa na matriz
Da cidadezinha onde nasci
Ah! Meu Deus eu era tão feliz
No meu pequenino Mirai

Que saudade da professorinha
Que me ensinou o “bê a bá”
Onde andará Mariazinha
Meu primeiro amor, onde andará?

Eu igual a toda meninada
Quanta travessura eu fazia
JOGO DE BOTÃO PELA CALÇADA
EU ERA FELIZ E NÃO SABIA.
(Música: Mirai – autor Ataulfo Alves)

Meus amigos leitores, para culminar tudo isso, quando da realização do Brasileiro, em Salvador, recebo um telefonema do Vicente, anunciando que a minha caixa postal estava cheia e os e-mails estavam voltando. Naquele momento, coloquei no celular o Oldemar Seixas que o saudou com efusão. Depois disso, ainda conversamos por mais duas vezes, sendo que o Vicente estava interessado em adquirir um São Paulo, nos moldes atuais, pois os botões que usávamos eram mais altos e menores em circunferência. Pediu-me que comprasse um, exposto pelos diversos fabricantes, mas, orientado pelo Enio Durante, nosso colega de Banco do Brasil, a indicação recaiu sobre Adilson Montenegro, que está produzindo verdadeiras obras de arte. E o Vicente merece ter uma obra de arte em suas mãos vencedoras. O próprio Enio está encarregado de receber o time e levá-lo para Pelotas, realizando mais esse sonho do menino que marcou a parede de cimento penteado de sua infância, com a criação de tantos craques que povoaram seus sonhos juvenis.
Fico feliz em falar nessa pessoa maravilhosa que cruzou seu caminho com o meu. Esse irmão que a vida me concedeu e que faz parte de minha família, pois é padrinho de minha filha Virginia.
Vicente recebe premiação na Taça Brasil em Caxias do Sul
Vicente Sacco nos dias de hoje ao lado de sua esposa  Regina

Até a semana que vem, se Deus assim permitir.

domingo, 16 de dezembro de 2012

VICENTE SACCO NETTO – PRIMEIRO CAMPEÃO ESTADUAL EM 1973. – PRIMEIRA PARTE.


Em 02 de maio de 2011, escrevi sobre esse grande botonista, meu irmão/amigo/compadre/colega que aportou em Caxias no ano de 1965 e, em 1968, foi transferido para Canguçú, sendo o grande propagador do futebol de mesa no sul do estado. Em 26 de novembro de 2011, enviou-me um retrospecto de sua vida de botonista e, sem a sua autorização, reproduzi-lo-ei, pois é algo que não pode ficar restrito somente em meu arquivo.
Torneio demonstrativo da Regra Brasileira realizado em Canguçu
Marcas profundas e indeléveis. Ah, sim! Aquelas marcas, eu as conheço muito bem! Pois foi naquela mesma calçada da rua onde passei boa parte de minha infância e, também, da minha adolescência, que me pus a refletir. Há poucos dias, lá estive e não havia outra. Sempre sou acometido pela nostalgia quando volto àquele quarteirão. Paro por alguns minutos e a mente vagueia; a casa onde morei está como eu, desgastada pelo tempo... envelheceu. Mas, as marcas ou sulcos nas paredes da casa contígua – aquelas marcas estão muito nítidas.
Com efeito, há muitas razões para que permaneçam. Explico: naquelas paredes foram forjados os maiores “craques” na minha imaginação de guri. Parece incrível, nos botões a gente enxerga a própria pessoa do futebolista. Comecei aos seis anos de idade, com as tampas de vidros de remédio, de brilhantina Royal Briar, de creme Antisardina e, até mesmo, com tampinhas de garrafas. Num belo dia, minha mãe – que Deus a tenha – incumbiu-me de levar um bilhete à senhora que lhe encomendara um vestido (minha mãe, Chiquinha, era costureira, e das melhores). O bilhete continha o seguinte teor: “Da. Alzira mande, pelo Vincetinho, uns seis botões daqueles que combinamos usar no seu traje.” Da. Alzira – não sei por que razão – entregou-me um pacotinho com sete botões. Eram das minhas cores prediletas, ou seja, vermelho nas bordas e, no centro, um círculo preto. Naquela época, década de cinquenta, o G. E. Brasil (grande Xavante) contava com um ponteiro direito de nome Mortosa (tio do atual assistente do Felipão), famoso por desferir chutes fortíssimos. Não hesitei um instante. Entreguei o pacotinho à minha mãe e o sétimo botão, o Mortosa, acompanhou-me até a calçada e, de lá à parede de cimento penteado. Com muito esmero, dei-lhe uma caída apropriada para que pudesse arremessar a bolinha, botão de bragueta, por cima dos goleiros (caixa de fósforos com chumbo por dentro) adversários. O calendário da casa ou folhinha, como se dizia, ficou com um furo de tesoura no espaço do número sete. E o Mortosa não me decepcionou. Ao contrário, tornou-se o goleador do time. Aquele fato desencadeou um processo ininterrupto de muitas décadas, pois cheguei à conclusão de que as tampinhas não davam melhor retorno. Aderi aos botões de casaco ou sobretudo. Passei a frequentar a casa de um alfaiate amigo da família, sempre que tivesse oportunidade. Dizia-me o Sr. Antonio Cordias: - “Vicentinho cuida da porta para mim, que vou tomar um café e já volto”. Pode ir, Seu Antonio. E me dirigia para as caixas de botões no estoque das prateleiras. Surgiram, assim, o Tibiriçá, o Seara, o Manoelzinho, o Tábua e outros tantos grandes jogadores. Mas, no futebol de botões, como no de campo, a competitividade não tem limites e logo surgiram os ioiôs. Os discos dos ioiôs tinham o seu lado interno absolutamente liso e bastava uma lixadinha para adaptar a caída e... pronto. O Dino Sani, do São Paulo F. C., nasceu assim. Chutava muito bem de longe. Possuía uma cor de cenoura e atuava, tanto no meio de campo, como na meia, tal como de carne e osso. Logo vieram outros da mesma matéria prima: Pé de Valsa, Bauer e Alfredo, a linha de “halfs” do SPFC em 1953. A duas quadras da minha casa, localizava-se o Vidrauto Princesa, casa especializada em pára-brisas, pertencente ao Sr. Luiz Carlos Moreira dos Santos, um cidadão com quem, muito tempo depois, foram estreitados laços muito fraternos. Passei a usar o vidro-plástico (era esse o material dos pára-brisas). De posse de um compasso e da serra Tito-tico, usada na disciplina Trabalhos Manuais do colégio, comecei a produzir peças circulares e a lançar outros “atletas”. Esse trabalho era árduo, pois o material era muito duro e o lixamento na parede de cimento penteado causava bolhas e ferimentos nas mãos. Os resultados, no entanto, eram compensadores, ainda mais quando descobri que, com acetona ou éter, poder-se-ia colar no vidro plástico uma camada superior de plástico comum, existente em brinquedos quebrados das minhas primas. Justamente na era dos famosos puxadores de uma, duas e até três camadas, conseguia lançar “atletas” muito parecidos a custo muito menor; até de graça.
Ora, contando com tantas opções de matéria prima, como os ioiôs, botões de casaco, vidro plástico e plástico derretido em formas, colecionei muitos times de qualidade. Os resultados em torneios e disputas com colegas e amigos eram animadores. Desenvolvi uma razoável habilidade no preparo de botões de todo o tipo.
A pior empreitada de todas foi quando me atirei ao fabrico de botões de casca de coco. Primeiramente, tinha de retirar aquela crosta de fiapos do lado de fora. Haja tempo de paciência! Pobres dedos! Depois continuava o lixamento para dar forma circular ao pedaço de casca, na famosa parede, é claro. Casca de coco não se corta com faca ou serrinha tico-tico. Esmeril? Não havia. O material é muito resistente. Mas, o Gino, o Maurinho e o Canhoteiro surgiram assim, além de muitos outros. A casca de coco, de difícil manuseio e doloroso preparo, redunda nos melhores botões, até mesmo pelo peso do material e por deixar a base interna naturalmente côncava. Aceita perfeitamente a parafina, a cera, os adesivos e, com um acabamento dado com caco de vidro bem afiado, fica totalmente lisa. Com dois tacos de madeira de iguais dimensões e duas tampas de remédio, também iguais, abertas no topo, é possível montar as cestas. Com botões levantadores e pequenos botões de bragueta, como bola, pratiquei o basquete. Algodão, Godinho, Guguta, Amauri, Vlamir e outros formavam o meu time do Flamengo. Os modismos pressionam os meninos, tanto na infância como na adolescência. Utilizar puxadores tornou-se uma verdadeira coqueluche. Comecei a me sentir meio fora da onda com meus botões, embora os resultados, como já afirmei, fossem gratificantes. Tomei uma decisão: teria um time de puxadores vindos de P. Alegre. Mas, como obtê-los? Cadê a grana? Lamentando o caso com outro menino, o Ângelo, surgiu-me uma ideia magnífica. A senhora mãe dele e ele próprio fabricavam, artesanalmente, uns bonequinhos de naftalina para vender. Os bonequinhos vinham com fitinhas e florzinhas, todos enfeitadinhos, e as pessoas os utilizavam para evitar o aparecimento de traças e outros insetos. Argumentei com o Ângelo (onde andará?) que me forneceu uma boa quantidade dos tais bonecos para pagamento após a revenda. A operação comercial funcionou às mil maravilhas, pois pagava, digamos, CR$ 1,00 e revendia por CR$ 2,00. Coloquei os bonecos em uma caixa de sapatos e os oferecia de porta em porta. Em pouco tempo, após pagar a mercadoria, com folga financeira, encomendei um time de puxadores e mais dois reservas. A defesa era de duas camadas (preto em baixo e vermelho em cima). Os dois ponteiros e o centroavante (centerforward) eram vermelhos e os dois meias, pretos. Os atacantes e os reservas (pretos) eram todos de uma só camada. O goleador daquele time era o Joel, ponta direita do Flamengo. Passado um largo tempo daquela retumbante contratação, decidi ampliar o plantel e, novamente, o Ângelo foi o empresário que financiou tudo. Vieram mais e mais puxadores de todas as cores imagináveis. Na hora do recreio no colégio, formava-se uma pequena multidão a minha volta. Havia trocas, compras e vendas. O Ilmar (já falecido) jogava com o Corinthians e tinha um botão de nome Paulo (reserva do Índio), que era bárbaro nas finalizações. Seu chute era seco e certeiro. Para mandar no canto era com ele mesmo, pois a bolinha não picava. Nessa época (1957, talvez), houve um surto de sarampo em Pelotas e o Ilmar foi acometido pela doença, tendo de ficar acamado por alguns dias. Arrisquei-me ao contágio e fui visitá-lo. Papo pra cá e papo pra lá, trocamos alguns botões e consegui contratar-lhe o Oreco, que era muito conceituado para cavar. Entre propostas e contrapropostas, acertamos a aquisição do Paulo (azul marinho brilhoso).  Despendi CR$ 15,00, mais três botões de duas camadas e doze gibis de segunda mão. Acontece que o Ilmar queria ler na cama. Na época não houve outra contratação tão valorizada. Proporcionalmente, seria como a do Ronaldinho Gaúcho pelo Flamengo. Meus amigos mais próximos ficaram com a mesma cara da diretoria do Grêmio, pela inveja e frustração que sentiram. Saí pela rua correndo e pulando com o Paulo, na mão, mostrando para o resto da gurizada. Confesso que fiquei esnobando a turma, como quem diz: agora não tem mais para ninguém. Muito bem! Até hoje, passados mais de cinquenta anos, estou aguardando a estréia do Paulo. Por quê? O Paulo sumiu! Não sei se o perdi nas comemorações ou foi furtado/sequestrado. De 1958 a 1960, minhas atividades botonisticas diminuíram de ritmo, pois passei a trabalhar numa empresa atacadista vizinha a minha casa, lá onde está a decantada parede. Diminuíram, mas não pararam. Na tal empresa, havia um grande estoque sabem de quê? De botões! Meu emprego passou a me fornecer a matéria prima e a parede de cimento penteado. Hoje em dia não se encontra um emprego assim. Um botão surrupiado de uma caixa, outro botão de outra caixa e aqueles “olhos de peixe” para servirem de bolinha. Conclusão: voltei ao lixamento em grande escala. Eram tantos os meus times que tive até o do São Cristóvão, com Santo Cristo e Olivam na ala esquerda.
Em 1962, já no Rio Grande do Sul e no Banco do Brasil, adotei o São Paulo Futebol Clube e, unicamente, ele nos torneios da AABB. Voltei aos puxadores, mas continuei a fabricar botões por distração.


Meus amigos leitores, essa é a primeira parte da história desse grande botonista. Na semana vindoura, teremos a continuação, pois nela o Vicente narra a sua chegada em Caxias e sua apresentação pela Regra Brasileira de Futebol de Mesa.
Até a semana que vem, se Deus assim permitir.